Deteção precoce: a arma mais poderosa contra o cancro
O cancro é a segunda causa de morte em Portugal, responsável por cerca de 30.000 óbitos anuais e mais de 60.000 novos diagnósticos. Contudo, a mortalidade por cancro tem vindo a diminuir progressivamente nas últimas décadas, em grande parte graças a dois fatores: melhores tratamentos e, sobretudo, deteção mais precoce.
O princípio é simples mas poderoso: quanto mais cedo um cancro é identificado, maior a probabilidade de cura, menos agressivo é o tratamento necessário e melhor a qualidade de vida durante e após o tratamento. Um cancro da mama detetado no estádio I tem uma taxa de sobrevivência a 5 anos superior a 98%. No estádio IV, esta taxa cai para cerca de 30%. A diferença entre estes cenários é frequentemente um simples rastreio realizado a tempo.
Rastreios recomendados pela DGS e evidência internacional
Cancro colorretal — É o terceiro cancro mais frequente em Portugal e o segundo mais mortal. O rastreio com pesquisa de sangue oculto nas fezes imunoquímico (FIT) a cada 2 anos, dos 50 aos 74 anos, reduz a mortalidade em 15-33%. O teste é simples, indolor e pode ser feito em casa com um kit fornecido pelo médico de família. Se positivo, é seguido de colonoscopia diagnóstica.
A colonoscopia a cada 10 anos é a alternativa com maior sensibilidade (superior a 95%), permitindo não apenas diagnosticar mas também remover pólipos pré-cancerosos durante o mesmo procedimento — transformando um exame de rastreio numa intervenção preventiva direta. É particularmente recomendada em indivíduos com história familiar de cancro colorretal.
Cancro da mama — O cancro mais frequente nas mulheres portuguesas. A mamografia bienal em mulheres dos 50 aos 69 anos reduz a mortalidade por cancro da mama em aproximadamente 20%, segundo uma revisão Cochrane que incluiu dados de centenas de milhares de mulheres. O Programa Nacional de Rastreio do Cancro da Mama em Portugal convoca ativamente as mulheres nesta faixa etária.
Em mulheres com risco elevado (mutações BRCA1/BRCA2, história familiar forte com familiares de primeiro grau afetados antes dos 50 anos, radioterapia torácica prévia), a ressonância magnética complementar é recomendada, com início do rastreio 10 anos antes da idade do familiar mais jovem diagnosticado (ou aos 30 anos, o que for mais cedo).
Cancro do colo do útero — Graças ao rastreio e à vacinação contra o HPV, é um dos poucos cancros com potencial para eliminação. O teste HPV primário a cada 5 anos (ou citologia cervical a cada 3 anos) em mulheres dos 25 aos 64 anos permite identificar infeções e lesões pré-cancerosas anos antes da transformação maligna.
A vacinação contra o HPV reduziu a incidência de lesões pré-cancerosas em mais de 80% nas populações vacinadas, segundo dados de seguimento publicados no New England Journal of Medicine (2020) e no Lancet (2021). Em Portugal, a vacina está incluída no Programa Nacional de Vacinação para raparigas desde 2008 e para rapazes desde 2020.
Rastreios adicionais a discutir com o médico
- Cancro da próstata (PSA): Controverso. O rastreio com PSA reduz mortalidade por cancro da próstata mas leva a sobrediagnóstico e sobretratamento significativos (muitos cancros detetados nunca causariam problemas). A decisão deve ser individualizada, discutindo riscos e benefícios com o urologista, especialmente em homens dos 55 aos 69 anos
- Cancro do pulmão: TC de baixa dose anual em fumadores de alto risco (55-80 anos, com carga tabágica igual ou superior a 30 UMA). Reduz mortalidade em 20%. Recomendado nos EUA e em discussão na Europa
- Melanoma: Autoexame cutâneo mensal e consulta anual de dermatologia se fatores de risco (pele clara, história de queimaduras solares, nevos atípicos, história familiar). Usar a regra ABCDE: Assimetria, Bordos irregulares, Cor heterogénea, Diâmetro superior a 6mm, Evolução (qualquer mudança)
Barreiras ao rastreio em Portugal
Apesar dos programas organizados, as taxas de adesão ao rastreio em Portugal permanecem abaixo do desejável. As principais barreiras identificadas são: medo do resultado, falta de tempo, desconhecimento, dificuldade de acesso (especialmente em zonas rurais) e desconforto percebido. A evidência mostra que os benefícios do rastreio superam largamente os riscos — incluindo falsos positivos e sobrediagnóstico — quando realizado nas populações e intervalos recomendados.
Fontes
- Lei J, et al. HPV Vaccination and the Risk of Invasive Cervical Cancer. N Engl J Med. 2020;383(14):1340-1348.
- Gøtzsche PC, Jørgensen KJ. Screening for breast cancer with mammography. Cochrane Database Syst Rev. 2013;(6):CD001877.
- Direção-Geral da Saúde. Norma 003/2014 — Rastreio Oportunístico do Cancro do Colo do Útero. DGS, 2014.
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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