Uma queda pode mudar a vida de uma pessoa idosa em segundos. Uma fratura da anca, um mês de internamento, uma recuperação que nunca é completa. As quedas são a principal causa de lesão acidental em pessoas com mais de 65 anos — mas a maioria pode ser evitada. Este guia explica o que a ciência diz e o que pode fazer hoje, se tem um pai, uma mãe ou um familiar idoso.
O que diz a ciência
As quedas não acontecem por acaso. Resultam quase sempre da soma de vários fatores: perda de força muscular, equilíbrio reduzido, visão mais fraca, medicação que causa tonturas, e riscos físicos em casa (tapetes soltos, iluminação fraca, degraus sem corrimão).
A World Guidelines for Falls Prevention, publicada em 2022 por um grupo de 96 especialistas de 39 países e ainda a referência global em 2026, deixa um ponto claro: a prevenção eficaz nunca ataca um único fator. Combina avaliação do risco, exercício de equilíbrio e força, revisão da medicação, e adaptação do ambiente doméstico.
Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde reconhece as quedas como um problema de saúde pública, com impacto direto nos internamentos hospitalares e na perda de autonomia dos idosos.
Quem está em maior risco
Alguns fatores aumentam claramente a probabilidade de queda:
- Idade acima dos 75 anos, sobretudo se já houve uma queda anterior — o melhor preditor de uma próxima queda é ter tido uma
- Fraqueza muscular nas pernas e dificuldade em levantar-se de uma cadeira sem usar os braços
- Polimedicação — tomar cinco ou mais medicamentos por dia, especialmente sedativos, ansiolíticos ou medicamentos para a tensão arterial
- Problemas de visão não corrigidos ou desatualizados (óculos com receita antiga)
- Tonturas ao levantar-se (hipotensão ortostática), muito comuns e muitas vezes ignoradas
- Calçado inadequado — chinelos sem apoio ao calcanhar, solas escorregadias
- Défice de vitamina D, associado a maior fraqueza muscular e risco de queda
O que pode fazer
- Peça uma avaliação de risco de queda ao médico de família. É uma consulta simples, que pode incluir testes de equilíbrio e revisão da medicação.
- Reveja a medicação com o médico ou farmacêutico — sobretudo se toma mais de cinco medicamentos, ou se algum causa sonolência ou tonturas.
- Torne a casa mais segura: remova tapetes soltos, fixe fios elétricos, melhore a iluminação (sobretudo em corredores e escadas), instale barras de apoio na casa de banho.
- Incentive exercício de força e equilíbrio — mesmo sessões curtas, duas a três vezes por semana, reduzem significativamente o risco de queda. Caminhar não chega; é preciso trabalhar equilíbrio e força das pernas.
- Verifique a visão anualmente — uma consulta de oftalmologia simples pode prevenir quedas causadas por óculos desatualizados.
- Escolha calçado fechado, com sola antiderrapante e bom apoio ao calcanhar — evite chinelos e meias sozinhas em pavimento liso.
- Peça análise à vitamina D se o seu familiar sai pouco de casa ou tem exposição solar limitada.
Quando consultar o médico
Procure avaliação médica sem demora se o seu familiar:
- Já teve uma queda nos últimos 12 meses, mesmo sem lesão aparente
- Sente tonturas frequentes ao levantar-se
- Tem dificuldade crescente em levantar-se de uma cadeira ou subir escadas
- Sofreu uma queda com pancada na cabeça, dor persistente ou incapacidade de se levantar sozinho — neste caso, procure urgência hospitalar de imediato
Depois de qualquer queda, mesmo “sem gravidade aparente”, vale a pena informar o médico de família. Muitas vezes é o primeiro sinal de um problema de equilíbrio, visão ou medicação que ainda vai a tempo de ser corrigido.
Fontes: World Falls Task Force — World Guidelines for Falls Prevention and Management for Older Adults: A Global Initiative, Age and Ageing (2022); DGS — Direção-Geral da Saúde: Norma 008/2019, Prevenção e Intervenção na Queda do Adulto; SNS — Serviço Nacional de Saúde: Guia Prático para Prevenir Quedas de Idosos em Casa.
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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