Descoberta nos anos 70 como curiosidade científica, ameaça global em 2026
Em 1972, um oceanógrafo chamado Edward Carpenter publicou um artigo descrevendo a presença de pequenas partículas de plástico flutuando no Atlântico Norte. Na época, a descoberta foi vista como uma curiosidade. Cinquenta anos depois, os microplásticos estão em todo o lado — incluindo dentro de nós.
Em 2022, investigadores holandeses publicaram na revista Environment International o primeiro estudo a detectar microplásticos no sangue humano de 77% dos participantes testados. Desde então, a lista de locais onde foram encontrados no organismo não parou de crescer: pulmões, fígado, rim, placenta, leite materno, testículos, esperma, cérebro — e, em 2025, até no líquido folicular dos ovários de mulheres a realizar tratamentos de fertilidade.
O que antes parecia um problema ambiental distante é agora uma questão de saúde individual e urgente.
O que são microplásticos — e de onde vêm
Microplásticos são partículas de plástico com menos de 5 mm. Os nanoplásticos — a categoria mais preocupante — têm menos de 1 micrómetro, o que lhes permite atravessar barreiras biológicas que outras substâncias não conseguem, incluindo a barreira hematoencefálica.
As principais fontes de exposição humana incluem:
- Alimentação: peixe e marisco (acumulam microplásticos nos tecidos), água engarrafada em plástico, sal marinho, mel, cerveja, e — surpreendentemente — vegetais e frutas
- Embalagens: contentores de plástico aquecidos no micro-ondas libertam centenas de milhares de partículas por centímetro quadrado
- Água da torneira: estudos detectaram microplásticos em sistemas de água potável em todo o mundo, incluindo Portugal
- Ar que respiramos: fibras sintéticas de roupas, poeiras domésticas, pneus de automóvel
- Cosméticos e produtos de higiene: esfoliantes, pasta de dentes e produtos com microbeads
Estima-se que um adulto ingira entre 70.000 e 121.000 partículas de microplástico por ano, segundo investigação publicada no Environmental Science & Technology. Quem bebe exclusivamente água engarrafada em plástico ingere até 90.000 partículas adicionais por ano.
O achado que abalou Portugal e Espanha: microplásticos no azeite
Em 2025, um estudo publicado na revista Food Chemistry detectou microplásticos em óleos vegetais comerciais — incluindo azeite virgem extra de Portugal e Espanha, dois dos maiores produtores e consumidores mundiais.
As partículas identificadas incluíam polietileno, polipropileno e poliestireno — os mesmos plásticos usados nas embalagens. A contaminação ocorre durante o processo de extracção, transporte e armazenamento em recipientes de plástico, mesmo quando o produto final é embalado em vidro.
Para um país onde o azeite é um pilar cultural e gastronómico — Portugal consome em média 7 litros de azeite per capita por ano — esta descoberta tem implicações directas e imediatas. O conselho dos investigadores é preferir azeite em embalagens de vidro escuro proveniente de produtores que evitem contacto com plástico durante todo o processo.
O que acontece quando os microplásticos entram no organismo
A investigação sobre os efeitos dos microplásticos na saúde humana está ainda nas suas fases iniciais, mas os dados disponíveis são preocupantes:
Inflamação crónica: As partículas de plástico activam respostas inflamatórias nos tecidos onde se acumulam. Estudos em animais mostram infiltração de macrófagos e produção de citocinas inflamatórias em resposta à presença de microplásticos.
Disrupção endócrina: Muitos aditivos plásticos — ftalatos, bisfenol A (BPA), bisfenol S (BPS) — são disruptores endócrinos conhecidos. Interferem com os sistemas hormonais, com evidência associada a infertilidade masculina e feminina, puberdade precoce, obesidade e cancro hormono-dependente.
Danos no ADN: Estudos laboratoriais demonstraram que microplásticos e nanoplásticos podem induzir stress oxidativo e danos no ADN em células humanas.
Saúde cardiovascular: Um estudo publicado no New England Journal of Medicine em março de 2024 — um marco histórico — detectou microplásticos e nanoplásticos em placas ateroscleróticas de 58% dos doentes estudados. Estes doentes tinham um risco 4,5 vezes maior de enfarte, AVC ou morte cardiovascular nos 34 meses seguintes, comparativamente a quem não tinha plástico nas placas.
Fertilidade: Em 2025, microplásticos foram detectados no líquido folicular de 14 mulheres que realizavam FIV, com concentrações que se correlacionavam negativamente com a qualidade dos ovócitos.
O problema do “non-stick” e do aquecimento
Uma das fontes de exposição mais subestimadas é a cozinha doméstica. Revestimentos antiaderentes danificados podem libertar até 9.100 partículas de plástico por porção de comida, segundo investigação da Universidade de Newcastle. Utensílios de plástico em contacto com alimentos quentes, contentores de plástico no micro-ondas e embalagens de take-away são fontes relevantes de exposição.
Investigadores da Universidade de Nebraska demonstraram em 2023 que aquecer alimentos em contentores de polipropileno liberta até 4,22 milhões de partículas de microplástico e 2.107 milhões de nanoplásticos por centímetro quadrado.
O que pode fazer para reduzir a exposição
A exposição zero a microplásticos é impossível no mundo actual. Mas há medidas com impacto real:
- Substituir água engarrafada por filtro: Use um filtro de carvão activado ou osmose inversa na torneira. Reduz drasticamente a ingestão de microplásticos comparativamente à água em garrafas de plástico
- Nunca aquecer em plástico: Use sempre recipientes de vidro, cerâmica ou aço inoxidável no micro-ondas e no forno
- Azeite e óleos em vidro: Prefira sempre embalagens de vidro escuro. Verifique a cadeia de produção
- Substituir utensílios antiaderentes: Opte por ferro fundido, aço inoxidável ou cerâmica sem revestimento sintético. Deite fora antiaderentes com riscos
- Reduzir plásticos de uso único: Sacos, palhas, embalagens — cada redução é uma redução de exposição
- Ventilar a casa: O ar interior tem frequentemente mais partículas que o exterior. Ventile regularmente
- Lavar roupas sintéticas com saco filtrante: Sacos como o Guppyfriend capturam fibras de microfibra libertadas na lavagem
- Preferir peixe pequeno: Sardinha, cavala e carapau acumulam menos microplásticos que peixes predadores de grande porte
Conclusão: a urgência de agir antes de ter toda a ciência
A investigação sobre os efeitos dos microplásticos na saúde humana ainda não produziu causalidade definitiva — a ciência demora. Mas os dados disponíveis justificam o princípio da precaução. Quando um estudo publicado no New England Journal of Medicine detecta plástico em placas arteriais e associa isso a um risco 4,5 vezes maior de morte cardiovascular, esperar pela “prova definitiva” pode ser demasiado tarde.
As medidas de redução de exposição são, na sua maioria, gratuitas ou de baixo custo. Não exigem sacrifícios radicais. E o simples acto de substituir a garrafa de água de plástico por um copo de vidro já reduz uma das maiores fontes de exposição diária.
A biologia não mente: o que colocamos dentro do nosso corpo importa. Sempre importou.
Fontes e referências
- Leslie HA, et al. Discovery and quantification of plastic particle pollution in human blood. Environment International. 2022;163:107199.
- Marfella R, et al. Microplastics and Nanoplastics in Atheromas and Cardiovascular Events. N Engl J Med. 2024;390:900-910.
- Ragusa A, et al. Plasticenta: First evidence of microplastics in human placenta. Environment International. 2021;146:106274.
- Zhong X, et al. Microplastics in extra-virgin olive oil and vegetable oils. Food Chemistry. 2025.
- Cox KD, et al. Human Consumption of Microplastics. Environmental Science & Technology. 2019;53(12):7068-7074.
- EFSA. Presence of microplastics and nanoplastics in food, with particular focus on seafood. EFSA Journal. 2016.
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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