Apneia do Sono: Porque o Ressonar Pode Ser um Sinal de Alerta Cardiovascular

A apneia obstrutiva do sono afeta entre 15 e 30% dos adultos portugueses e não é apenas um problema de ressonar. É um fator de risco cardiovascular independente, com o mesmo peso que fumar ou a hipertensão arterial.


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Ressonar é a queixa de saúde que mais raramente chega ao médico — afinal, quem ressona não ouve o próprio ruído e raramente acorda com isso. Mas a apneia obstrutiva do sono, que afeta entre 15 e 30% dos adultos portugueses, não é apenas um problema de ressonar. É um fator de risco cardiovascular independente, com o mesmo peso que fumar ou a hipertensão arterial.

O que é a apneia obstrutiva do sono

Durante o sono, os músculos da garganta relaxam. Em pessoas com apneia, este relaxamento é excessivo — a via aérea colapsa parcial ou totalmente, interrompendo o fluxo de ar por 10 segundos ou mais. O cérebro deteta a falta de oxigénio, provoca um micro-despertar (que a pessoa não recorda) para reabrir a via aérea, e o ciclo repete-se. Em casos graves, este ciclo pode acontecer mais de 30 vezes por hora, ao longo de toda a noite.

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A consequência imediata é o sono fragmentado — tecnicamente dormiu 8 horas, mas nunca atingiu sono profundo suficiente. A longo prazo, cada interrupção respiratória provoca uma queda na saturação de oxigénio e um pico de cortisol e catecolaminas (adrenalina, noradrenalina), com efeitos sistémicos relevantes para o coração e os vasos sanguíneos.

Ligação ao risco cardiovascular: o que a ciência diz

A associação entre apneia do sono e doença cardiovascular é uma das mais robustas da medicina do sono. Estudos publicados no New England Journal of Medicine e no Journal of the American College of Cardiology mostram que a apneia do sono não tratada aumenta:

  • O risco de hipertensão arterial em 37%
  • O risco de enfarte do miocárdio em 23%
  • O risco de acidente vascular cerebral (AVC) em 58%
  • O risco de fibrilhação auricular em 2 a 4 vezes

Um dado importante: cerca de 50% dos doentes com fibrilhação auricular têm apneia do sono não diagnosticada. Em pessoas com hipertensão resistente ao tratamento — que não responde a dois ou três medicamentos — a apneia do sono é uma das causas mais frequentes e mais ignoradas.

Quem está em risco

  • Obesidade: o fator modificável mais importante. Cada aumento de 10% no peso corporal aumenta em 6 vezes o risco de apneia moderada a grave
  • Género masculino: os homens têm 2–3 vezes maior prevalência. As mulheres aproximam-se dos valores masculinos após a menopausa
  • Idade: a prevalência aumenta progressivamente; o pico situa-se entre os 50 e os 70 anos
  • Anatomia das vias aéreas: mandíbula retraída, amígdalas aumentadas, pescoço largo
  • Álcool e sedativos: relaxam os músculos faríngeos — especialmente perigosos nas 4 horas antes de deitar
  • Posição de dormir: a posição de costas agrava a apneia na maioria das pessoas

Sintomas: o que reconhecer

Noturnos (muitas vezes relatados pelo parceiro ou parceira):

  • Ressonar intenso e irregular, com pausas seguidas de engasgos ou bufadas
  • Agitação e mudanças frequentes de posição durante o sono
  • Ida frequente à casa de banho durante a noite (noctúria)

Diurnos:

  • Cansaço matinal apesar de dormir as horas suficientes — a queixa mais característica
  • Sonolência diurna: adormecer em situações passivas (reuniões, televisão, como passageiro no carro)
  • Dificuldade de concentração e memória
  • Dores de cabeça matinais
  • Irritabilidade e alterações de humor
  • Em homens: disfunção erétil (associada à hipoxia crónica)

Como avaliar a sonolência diurna: Escala de Epworth

Para cada situação abaixo, atribua 0 (nunca adormeço), 1 (pequena probabilidade), 2 (probabilidade moderada) ou 3 (grande probabilidade):

Situação Pontuação (0–3)
Sentado a ler
A ver televisão
Em reunião, cinema ou teatro
Como passageiro no carro durante mais de uma hora
A descansar deitado à tarde
A falar com alguém
Após o almoço, sem álcool
Num carro parado no trânsito por alguns minutos

Interpretação: 0–10 = sonolência normal; 11–16 = sonolência excessiva (consulte o médico); >16 = sonolência muito grave.

Diagnóstico: da suspeita ao exame

O diagnóstico definitivo é feito por polissonografia — monitorização durante uma noite completa da oximetria, fluxo de ar, esforço respiratório, posição corporal, eletroencefalograma e eletrocardiograma. Pode ser realizado em laboratório do sono ou em casa (poligrafia cardiorrespiratória), suficiente para diagnosticar a grande maioria dos casos.

O parâmetro-chave é o Índice de Apneia-Hipopneia (IAH):

IAH (eventos/hora) Classificação
Menos de 5 Normal
5 – 14 Apneia ligeira
15 – 29 Apneia moderada
30 ou mais Apneia grave

Em Portugal, o diagnóstico e tratamento da apneia do sono são comparticipados pelo SNS para casos moderados a graves com sintomatologia documentada.

Tratamento: o que funciona

CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas) — tratamento de referência para apneia moderada a grave. Mantém a via aérea aberta durante o sono através de uma pressão de ar constante. É eficaz em mais de 90% dos casos: a sonolência diurna melhora na primeira semana, a pressão arterial noturna reduz em 2–4 mmHg em média.

Aparelhos de avanço mandibular (AAM) — dispositivos dentários que avançam a mandíbula durante o sono. Eficazes em apneia ligeira a moderada, com melhor tolerância a longo prazo para muitos doentes.

Perda de peso — o único tratamento potencialmente curativo. Uma perda de 10% do peso corporal reduz o IAH em cerca de 26%. Em casos de obesidade grave com apneia grave, a cirurgia bariátrica elimina completamente a apneia em cerca de 85% dos doentes.

Medidas complementares:

  • Evitar álcool nas 4 horas antes de deitar
  • Evitar sedativos e ansiolíticos sem indicação médica
  • Dormir de lado em vez de costas (pode reduzir o IAH em 30–50% nos casos posicionais)
  • Manter horários de sono regulares

O que fazer se suspeita ter apneia

  1. Fale com o seu médico de família — descreva os sintomas noturnos e a sonolência diurna. Leve a pontuação da Escala de Epworth calculada acima
  2. Peça à pessoa com quem partilha a cama que observe o padrão de ressonar — as pausas respiratórias seguidas de engasgos são o sinal mais específico
  3. Se tiver hipertensão arterial resistente ao tratamento, peça ao médico que investigue apneia do sono como causa — é uma das mais frequentes e mais ignoradas
  4. Não compre dispositivos anti-ressonar sem diagnóstico — a maioria das bandas nasais, almofadas e sprays não tem eficácia clínica comprovada para apneia real

Fontes

  • Javaheri S, et al. Sleep Apnea: Types, Mechanisms, and Clinical Cardiovascular Consequences. J Am Coll Cardiol. 2017;69(7):841-858.
  • Peppard PE, et al. Increased Prevalence of Sleep-Disordered Breathing in Adults. Am J Epidemiol. 2013;177(9):1006-1014.
  • Drager LF, et al. Sleep Apnea and Cardiovascular Disease. J Am Coll Cardiol. 2013;62(7):569-576.
  • Martínez-García MÁ, et al. Effect of CPAP on Blood Pressure in Patients With OSA. JAMA. 2013;310(22):2407-2415.
  • Sateia MJ. International Classification of Sleep Disorders, 3rd Edition. Chest. 2014;146(5):1387-1394.

Perguntas Frequentes Sobre Apneia do Sono

Como sei se tenho apneia do sono?

Os sinais mais frequentes são: ressonar intenso e irregular com pausas respiratórias observadas pelo parceiro, acordar com sensação de sufoco ou engasgo, sonolência diurna excessiva apesar de horas suficientes de sono, dores de cabeça matinais e boca seca ao acordar. A confirmação diagnóstica requer um estudo do sono — polissonografia em laboratório (padrão de referência) ou monitorização respiratória domiciliária (mais acessível e adequada para maioria dos casos). O médico de família pode pedir a referenciação.

O CPAP é mesmo necessário ou existem alternativas?

O CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas) é o tratamento de primeira linha para apneia moderada a grave — eficácia comprovada em reduzir o índice de apneia-hipopneia, melhorar a qualidade do sono e reduzir o risco cardiovascular. Para casos ligeiros ou para pessoas que não tolerem o CPAP, existem alternativas: dispositivos de avanço mandibular (aparelhos dentários que avançam a mandíbula), cirurgia das vias aéreas superiores em casos selecionados, e posicionamento (evitar posição de costas) para apneia posicional. A perda de peso é a única intervenção que pode curar a apneia em doentes com obesidade significativa.

A apneia do sono não tratada causa hipertensão?

Sim — é uma das associações mais bem documentadas na medicina do sono. A apneia provoca ativação simpática repetida durante a noite, com picos de cortisol e adrenalina que elevam a pressão arterial. Com o tempo, este padrão leva a hipertensão sustentada, incluindo hipertensão resistente ao tratamento (que não responde a dois ou três medicamentos). Tratar a apneia com CPAP reduz a pressão arterial sistólica em 2–10 mmHg, efeito comparável a um anti-hipertensor.

Ressonar é sempre sinal de apneia?

Não. Ressonar simples (sem pausas respiratórias, sem dessaturação de oxigénio, sem sonolência diurna) é frequente e não implica apneia. Estima-se que 30–40% dos adultos ressone habitualmente sem apneia do sono. O sinal de alerta são as pausas respiratórias observadas pelo parceiro, os engasgos noturnos, o acordar sufocado e a sonolência diurna excessiva. O diagnóstico requer estudo do sono com monitorização da saturação de oxigénio, não apenas do ressonar.

A apneia do sono piora com a idade?

Sim. A prevalência de apneia do sono aumenta progressivamente com a idade, com pico entre os 50 e os 70 anos. Os mecanismos incluem redução do tónus muscular faríngeo, alterações na anatomia das vias aéreas e aumento do peso corporal com a idade. Nas mulheres, a menopausa representa um salto significativo no risco — a prevalência aproxima-se da dos homens após a menopausa. A apneia não tratada acelera o envelhecimento cardiovascular e cognitivo, tornando o diagnóstico e tratamento ainda mais relevantes após os 50 anos.

Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.


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