Vacinação no Adulto: Para Além da COVID — O Que Deve Estar em Dia


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A vacinação não é só para crianças

A imunização é uma das intervenções de saúde pública com melhor relação custo-eficácia na história da medicina. Estima-se que as vacinas previnem 3,5-5 milhões de mortes por ano globalmente. Em adultos, contudo, a adesão ao calendário vacinal é frequentemente negligenciada — muitos desconhecem que existem vacinas recomendadas ao longo de toda a vida, com reforços periódicos necessários para manter a imunidade.

A imunidade conferida por algumas vacinas da infância diminui ao longo das décadas. Simultaneamente, o envelhecimento do sistema imunitário (imunossenescência) torna os adultos mais velhos mais vulneráveis a infeções graves. A vacinação no adulto não é um “extra” — é uma necessidade médica com benefícios comprovados.

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Programa Nacional de Vacinação — recomendações para adultos em Portugal

Tétano e difteria (Td): Reforço a cada 10 anos ao longo de toda a vida. O tétano continua a existir no ambiente (esporos no solo) e a imunidade diminui progressivamente sem reforço. Um estudo publicado no Clinical Infectious Diseases mostrou que até 50% dos adultos com mais de 60 anos têm níveis insuficientes de anticorpos antitetânicos. A vacina é segura, gratuita e disponível em qualquer centro de saúde. Muitos adultos perderam o rasto ao seu boletim de vacinas — se não tem a certeza do último reforço, o seu médico de família pode verificar e atualizar.

Gripe sazonal: Vacinação anual recomendada para todos os adultos com mais de 65 anos, doentes crónicos (diabetes, doenças cardíacas, respiratórias, renais, imunossupressão), grávidas e profissionais de saúde. A vacina é reformulada anualmente para corresponder às estirpes em circulação. Reduz hospitalizações em 40-60% e mortalidade em 50-68% nos idosos. Mesmo quando a correspondência com as estirpes circulantes é imperfeita, a vacinação reduz a gravidade da doença.

Em Portugal, a campanha de vacinação contra a gripe decorre habitualmente de outubro a dezembro. A vacina é gratuita para os grupos de risco e disponível nas farmácias e centros de saúde.

Pneumocócica: Recomendada para adultos com 65 ou mais anos e doentes crónicos. A doença pneumocócica invasiva (pneumonia, meningite, septicemia) é uma causa major de hospitalização e morte em idosos. A vacina conjugada 20-valente (PCV20) oferece proteção alargada contra os serotipos mais frequentes. Uma única dose confere proteção prolongada.

Herpes zoster (zona): A vacina recombinante (Shingrix) é recomendada para adultos com 50 ou mais anos, com eficácia superior a 90% na prevenção do herpes zoster, mantida durante pelo menos 7 anos segundo dados publicados no New England Journal of Medicine. O herpes zoster afeta 1 em cada 3 adultos ao longo da vida, e a sua complicação mais temida — a nevralgia pós-herpética — causa dor crónica debilitante que pode durar meses ou anos. A vacinação é a forma mais eficaz de prevenir esta condição.

Vacinas em situações especiais

  • Hepatite B: Profissionais de saúde, doentes renais crónicos (especialmente em diálise), pessoas com múltiplos parceiros sexuais, utilizadores de drogas injetáveis, viajantes para zonas endémicas. Verificar anticorpos anti-HBs para confirmar imunidade
  • Hepatite A: Viajantes para zonas endémicas (África, Ásia, América Central e do Sul), pessoas com doença hepática crónica, homens que têm sexo com homens
  • HPV: Recomendada até aos 26 anos como rotina. Pode ser considerada até aos 45 anos em indivíduos não vacinados, após discussão individual dos benefícios. Protege contra cancros do colo do útero, ânus, orofaringe, pénis e vulva
  • Meningocócica: Asplenia (ausência de baço), deficiências do complemento, viajantes para o cinturão africano da meningite, peregrinos a Meca
  • COVID-19: Seguir as recomendações atualizadas da DGS quanto a reforços, especialmente para grupos de risco e idosos

Mitos e factos sobre vacinação em adultos

Mito: “Já fui vacinado em criança, estou protegido para sempre.” Facto: Algumas vacinas conferem imunidade vitalícia (sarampo, rubéola), mas outras necessitam de reforço (tétano, difteria, tosse convulsa).

Mito: “Sou saudável, não preciso de vacinas.” Facto: A vacinação protege não apenas o indivíduo mas também as pessoas vulneráveis à sua volta (imunidade de grupo). Mesmo adultos saudáveis podem transmitir infeções a bebés, idosos e imunossuprimidos.

Mito: “As vacinas causam efeitos secundários graves.” Facto: Os efeitos secundários mais comuns (dor no local da injeção, febre ligeira, fadiga) são transitórios e ligeiros. Reações graves são extremamente raras — muito mais raras do que as complicações das doenças que previnem.

Fontes

  • Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional de Vacinação 2020. Norma 018/2020. DGS, Portugal.
  • Lal H, et al. Efficacy of an adjuvanted herpes zoster subunit vaccine in older adults. N Engl J Med. 2015;372(22):2087-2096.
  • Grohskopf LA, et al. Prevention and Control of Seasonal Influenza with Vaccines: Recommendations — ACIP, United States, 2023-24. MMWR Recomm Rep. 2023;72(2):1-25.

Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.


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