Apneia do Sono: O Distúrbio que 80% dos Portugueses Afectados Não Sabe que Tem


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Apneia do Sono: O Distúrbio que 80% dos Portugueses Afectados Não Sabe que Tem

Ronca alto. Acorda cansado mesmo depois de oito horas de cama. Tem sonolência durante o dia que não consegue explicar. Dores de cabeça matinais. Dificuldade de concentração. O cônjuge diz que às vezes pára de respirar durante o sono.

Se se reconhece nesta descrição, pode estar entre as centenas de milhares de portugueses com apneia obstrutiva do sono — e sem saber.

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Globalmente, estima-se que 936 milhões de adultos entre os 30 e os 69 anos tenham algum grau de apneia obstrutiva do sono. É uma das doenças crónicas mais prevalentes e mais subdiagnosticadas do mundo. Em Portugal, as estimativas apontam para 600 mil a 936 mil pessoas afectadas. Mas a maioria — entre 75 a 80% — nunca recebeu diagnóstico.

E isso tem consequências. Graves.

O que é a apneia do sono — e porque importa mais do que parece

A apneia do sono é um distúrbio caracterizado por paragens repetidas da respiração durante o sono. Estas paragens — as “apneias” — ocorrem quando os músculos da garganta relaxam e bloqueiam parcial ou totalmente as vias aéreas superiores.

Existem três tipos:

  • Apneia Obstrutiva do Sono (AOS) — a mais comum; causada por colapso físico das vias aéreas
  • Apneia Central do Sono (ACS) — o cérebro falha em enviar sinais aos músculos respiratórios; menos frequente, associada a insuficiência cardíaca e AVC
  • Apneia Mista — combinação das duas formas

Cada episódio de apneia dura entre 10 segundos e mais de um minuto. O organismo responde com microdespertares — tão breves que a pessoa não recorda — que restauram o tónus muscular e reabrem as vias aéreas. Este ciclo pode repetir-se dezenas ou centenas de vezes por noite.

A severidade é medida pelo Índice de Apneia-Hipopneia (IAH) — o número de eventos por hora de sono:

  • Normal: menos de 5 eventos/hora
  • Leve: 5 a 14 eventos/hora
  • Moderada: 15 a 29 eventos/hora
  • Grave: 30 ou mais eventos/hora

Pessoas com apneia grave podem ter mais de 60 paragens respiratórias por hora — uma a cada minuto de sono.

Os sinais que a maioria ignora (ou atribui a outra causa)

O problema da apneia do sono é que os seus sintomas são facilmente confundidos com cansaço normal, stress ou envelhecimento. Os mais comuns:

Sintomas nocturnos

  • Ronco alto e persistente (presente em 95% dos casos, mas nem toda a gente que ronca tem apneia)
  • Pausas respiratórias testemunhadas pelo parceiro
  • Engasgos ou sufocação durante o sono
  • Despertar com sensação de falta de ar
  • Urinar frequentemente durante a noite (noctúria)
  • Sudorese nocturna excessiva
  • Insónia ou sono fragmentado

Sintomas diurnos

  • Sonolência excessiva — adormecer em reuniões, a ver televisão, ou em semáforos
  • Dores de cabeça matinais, que melhoram ao longo do dia
  • Sensação de sono não reparador (“acordei cansado”)
  • Dificuldade de concentração, esquecimentos, “névoa mental”
  • Irritabilidade, alterações de humor, depressão
  • Diminuição da libido e disfunção eréctil nos homens
  • Boca seca ao acordar

Um dado que surpreende: muitas pessoas com apneia não referem sonolência diurna significativa. Adaptaram-se tão bem ao cansaço crónico que o consideram “normal”.

Factores de risco: quem está mais exposto

A apneia obstrutiva do sono não afecta todas as pessoas de igual forma. Os principais factores de risco são:

Obesidade — o factor mais importante

O excesso de peso, especialmente a deposição de gordura na região do pescoço e da faringe, estreita as vias aéreas e aumenta a tendência para o seu colapso durante o sono. Um IMC acima de 30 multiplica por quatro o risco de apneia. Um perímetro cervical superior a 43 cm nos homens e 38 cm nas mulheres é um marcador de risco independente.

Portugal, com uma das taxas de obesidade mais elevadas da Europa Ocidental (21,6% da população adulta segundo o INE), tem nisto um factor de risco poblacional significativo.

Idade

A prevalência aumenta com a idade. Dos 30 aos 70 anos, o risco cresce progressivamente — em parte por relaxamento dos tecidos musculares, em parte por ganho de peso associado ao envelhecimento.

Sexo masculino

Os homens têm duas a três vezes mais risco de apneia do sono do que as mulheres em idade reprodutiva. Esta diferença diminui após a menopausa — o que sugere um efeito protector dos estrogénios sobre o tónus muscular das vias aéreas. As mulheres, por apresentarem sintomas mais atípicos (insónia, depressão, fadiga sem ronco intenso), são frequentemente subdiagnosticadas.

Anatomia das vias aéreas

Algumas características anatómicas predispõem à apneia independentemente do peso: mandíbula retraída (retrognatia), palato estreito, amígdalas aumentadas, nariz desviado. Estas são causas mais frequentes em pessoas jovens e sem excesso de peso.

Histórico familiar e genética

Existem componentes genéticas relevantes — tanto na estrutura craniofacial como na regulação do tónus muscular durante o sono. Ter um familiar de primeiro grau com apneia aumenta o risco.

Consumo de álcool e sedativos

O álcool relaxa os músculos da garganta e suprime os mecanismos de despertar, agravando significativamente a apneia. Benzodiazepinas e outros sedativos têm efeito semelhante.

Tabagismo

Os fumadores têm três vezes mais risco de apneia do sono. O fumo provoca inflamação e retenção de líquidos nas vias aéreas superiores.

As consequências que ninguém liga à apneia do sono

A privação crónica de sono profundo e as repetidas quedas de oxigénio (hipóxia intermitente) têm efeitos sistémicos que vão muito além do cansaço. A apneia do sono não tratada está associada a um risco significativamente aumentado de:

Doenças cardiovasculares — a ligação mais robusta

Cada episódio de apneia provoca uma queda de oxigénio no sangue, um pico de frequência cardíaca e um aumento da pressão arterial. Quando isto se repete dezenas de vezes por noite, ao longo de anos, as consequências são cumulativas:

  • Hipertensão arterial: A apneia do sono é uma das causas mais frequentes de hipertensão resistente ao tratamento — aquela que não controla com três ou mais anti-hipertensores. Estima-se que 50% dos hipertensos resistentes tenham apneia não diagnosticada.
  • Fibrilhação auricular: A hipóxia intermitente e as flutuações de pressão intratóracica aumentam significativamente o risco de FA — a arritmia cardíaca mais comum e uma das principais causas de AVC.
  • Acidente Vascular Cerebral: Homens com apneia grave têm risco quase quatro vezes superior de AVC.
  • Doença coronária: O risco de enfarte do miocárdio é 2 a 3 vezes superior em pessoas com apneia grave não tratada.
  • Insuficiência cardíaca: Relação bidirecional — a apneia piora a insuficiência cardíaca e vice-versa.

Diabetes tipo 2 e resistência à insulina

A hipóxia intermitente e o sono fragmentado activam mecanismos inflamatórios e alteram a regulação do cortisol e da insulina. Pessoas com apneia moderada a grave têm 2,5 vezes mais risco de diabetes tipo 2. A apneia é considerada um factor de risco independente — mesmo controlando para o peso.

Declínio cognitivo e risco de Alzheimer

O sono profundo é essencial para a activação do sistema glinfático — a “limpeza” cerebral que remove proteínas beta-amilóide e tau associadas ao Alzheimer. A apneia fragmenta o sono profundo e a hipóxia danifica directamente os neurónios.

Estudos longitudinais mostram que pessoas com apneia não tratada têm maior risco de desenvolver défice cognitivo ligeiro e demência 10 a 15 anos mais cedo. Um ensaio publicado no JAMA Neurology em 2024 demonstrou que o tratamento com CPAP durante 5 anos reduz significativamente os biomarcadores de doença de Alzheimer no líquido cefalorraquidiano.

Depressão e ansiedade

A relação é bidirecional e complexa. A apneia agrava a depressão, e a depressão piora a qualidade do sono e a adesão ao tratamento. Estima-se que 20 a 30% das pessoas com depressão resistente ao tratamento tenham apneia do sono não diagnosticada.

Acidentes de viação

A sonolência diurna associada à apneia aumenta o risco de acidentes de viação em 2 a 7 vezes. Em Portugal, estudos europeus sugerem que entre 10 a 20% dos acidentes de viação graves têm como factor contributivo a sonolência ao volante — parte desta atribuível à apneia não tratada.

Como se diagnostica a apneia do sono

O diagnóstico definitivo requer um estudo do sono. Existem duas modalidades principais:

Polissonografia laboratorial (PSG)

O exame de referência (gold standard). Realizado num laboratório de sono, monitoriza em simultâneo: fluxo aéreo nasal e oral, movimentos respiratórios, saturação de oxigénio, electroencefalograma (EEG), electrooculograma, electromiograma, electrocardiograma e posição corporal.

Fornece o diagnóstico mais completo, mas é caro, demorado e com listas de espera prolongadas nos hospitais públicos portugueses.

Poligrafia respiratória portátil (HSAT)

Um aparelho de diagnóstico ambulatório que a pessoa usa em casa durante a noite. Menos parâmetros monitorizados, mas suficiente para o diagnóstico da maioria dos casos de apneia moderada a grave. Crescentemente utilizado em Portugal, tanto em ambulatório privado como em centros de sono do SNS.

O papel do médico de família

O primeiro passo é a consulta com o médico de família, que pode aplicar questionários de triagem validados (Epworth Sleepiness Scale, STOP-BANG) e referenciar para consulta especializada de pneumologia ou medicina do sono.

Na prática, o percurso típico em Portugal no SNS tem tempos de espera prolongados — razão pela qual muitos portugueses recorrem ao sector privado para diagnóstico.

Tratamento: do CPAP às novas opções

CPAP — Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas

O CPAP (Continuous Positive Airway Pressure) é o tratamento de primeira linha para a apneia moderada a grave. Funciona como uma “gotinha de ar” contínua: uma máscara ligada a um aparelho sopra ar pressurizado que mantém as vias aéreas abertas durante o sono.

Quando usado consistentemente (mais de 4 horas por noite, mais de 5 noites por semana), os resultados são notáveis:

  • Eliminação ou redução drástica das apneias
  • Melhoria da pressão arterial (redução média de 2-3 mmHg — modesta mas clinicamente significativa)
  • Redução da sonolência diurna e melhoria da função cognitiva
  • Melhoria da qualidade de vida e das relações
  • Redução do risco cardiovascular com o uso continuado

O principal desafio do CPAP é a adesão: cerca de 30 a 50% das pessoas abandonam o tratamento nos primeiros 12 meses, por desconforto com a máscara, ruído do aparelho ou claustrofobia. A resolução destes problemas requer ajuste da máscara, titulação da pressão e acompanhamento por um profissional treinado.

Em Portugal, o CPAP está comparticipado pelo SNS nos casos de apneia moderada a grave com critérios definidos, mas com condicionalismos burocráticos que atrasam o acesso.

Dispositivos de avanço mandibular (DAM)

Aparelhos orais feitos à medida que avançam a mandíbula durante o sono, aumentando o espaço das vias aéreas. Indicados para apneia leve a moderada, ou para pessoas com apneia grave que não toleram o CPAP. Eficácia inferior ao CPAP mas com muito melhor adesão.

Estimulação do nervo hipoglosso (Inspire)

Uma das inovações mais significativas dos últimos anos. Um dispositivo implantado (semelhante a um pacemaker) que detecta o padrão respiratório e estimula o nervo hipoglosso durante a inspiração, avançando a língua e abrindo as vias aéreas. Indicado para casos seleccionados que falham o CPAP. Já disponível em Portugal em centros especializados.

Terapia posicional

Em alguns pacientes, a apneia ocorre predominantemente em posição dorsal (de costas). Dispositivos anti-ronco posicionais ou até uma bola de ténis cosida ao pijama podem reduzir significativamente os eventos.

Cirurgia

Indicada para casos específicos com obstrução anatómica identificável. As opções incluem uvulopalatofaringoplastia (UPPP), tonsilectomia, cirurgia nasal e, em casos graves de retrognatia, avanço bimaxilar.

A perda de peso — a única cura potencial

Em pessoas com apneia associada a obesidade, a perda de peso significativa (10-15% ou mais) pode reduzir dramaticamente ou mesmo eliminar a apneia. Em contexto de cirurgia bariátrica, a resolução completa da apneia ocorre em 75 a 85% dos casos.

Com a disponibilidade crescente dos fármacos GLP-1 (semaglutida, tirzepatida), que produzem perdas de peso sustentadas de 15-20%, este é um domínio a acompanhar: um ensaio publicado no New England Journal of Medicine em 2024 demonstrou que a tirzepatida reduziu o IAH em 63% em pacientes com apneia e obesidade — resultado sem precedentes para uma intervenção farmacológica.

O que pode fazer hoje

Se reconheceu sintomas neste artigo — em si próprio ou num familiar — eis os próximos passos práticos:

  1. Fale com o seu médico de família. Descreva os sintomas: ronco, pausas respiratórias, cansaço diurno, dores de cabeça matinais. Peça referenciação para consulta de medicina do sono ou pneumologia.
  2. Use o questionário STOP-BANG (disponível online) como triagem preliminar. Uma pontuação de 3 ou mais sugere risco elevado.
  3. Evite álcool e sedativos nas 2-3 horas antes de dormir. Agravam imediatamente a apneia.
  4. Durma de lado. Para muitas pessoas, reduz significativamente os eventos.
  5. Se tem excesso de peso, iniciar perda de peso é a intervenção com maior impacto estrutural a longo prazo.
  6. Não normalize o cansaço crónico. Sentir-se sempre cansado não é inevitável — pode ter uma causa tratável.

Uma nota sobre o diagnóstico em mulheres

As mulheres com apneia do sono apresentam frequentemente um perfil sintomático diferente dos homens: menos ronco intenso, mais insónia, fadiga e depressão. Esta diferença de apresentação leva a que o diagnóstico seja feito, em média, 10 anos mais tarde nas mulheres do que nos homens.

Após a menopausa, o risco de apneia nas mulheres iguala ou supera o dos homens da mesma idade. Qualquer mulher pós-menopausa com fadiga inexplicável, sono não reparador ou perturbações do humor deve incluir a apneia do sono na lista de causas a investigar.

Conclusão: o sono é medicina preventiva

A apneia do sono não é “apenas ronco”. É uma doença crónica que, sem tratamento, danifica silenciosamente o coração, o cérebro, o metabolismo e a qualidade de vida — durante anos, às vezes décadas, antes de se manifestar numa complicação grave.

O diagnóstico existe. O tratamento é eficaz. E os benefícios do tratamento — melhor tensão arterial, melhor função cognitiva, melhor humor, menos risco cardiovascular — são reais e mensuráveis.

O maior obstáculo é o desconhecimento: a maioria das pessoas afectadas não sabe que tem. E por isso não procura ajuda.

Se este artigo o fez questionar a qualidade do seu sono — esse pode ser o primeiro passo para mudar muito mais do que as noites.

Fontes e referências

  • Benjafield AV, et al. Estimation of the global prevalence and burden of obstructive sleep apnoea. Lancet Respiratory Medicine. 2019;7(8):687-698.
  • Javaheri S, et al. Sleep Apnea: Types, Mechanisms, and Clinical Cardiovascular Consequences. Journal of the American College of Cardiology. 2017;69(7):841-858.
  • Leng Y, et al. Sleep apnea and cognitive decline: A 5-year longitudinal study in a diverse cohort. Annals of Neurology. 2024;95(4):612-622.
  • Veasna D, et al. Tirzepatide for Obstructive Sleep Apnea and Obesity. New England Journal of Medicine. 2024;391(13):1193-1205.
  • Martinez-Garcia MA, et al. Sleep Apnea: From Heart to Brain. CHEST. 2023;163(3):707-717.
  • Heinzer R, et al. Prevalence of sleep-disordered breathing in the general population: the HypnoLaus study. Lancet Respiratory Medicine. 2015;3(4):310-318.
  • Direção-Geral da Saúde. Orientação Clínica — Perturbações do Sono. DGS, Lisboa, 2022.
  • AASM (American Academy of Sleep Medicine). Clinical Practice Guideline for Diagnostic Testing for Adult Obstructive Sleep Apnea. 2017.

Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.


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