Portugal é um dos países europeus com maior índice de radiação ultravioleta — e também um dos com maior incidência de cancro da pele. Todos os anos são diagnosticados cerca de 13.000 novos casos no país, dos quais 1.500 são melanomas, o tipo mais agressivo e potencialmente fatal. Os números crescem 5 a 6% ao ano. A boa notícia: é o cancro com maior potencial de prevenção, e o diagnóstico precoce muda radicalmente o prognóstico.
Porque Portugal é tão vulnerável ao cancro da pele
A pele é o maior órgão do corpo humano e o principal escudo contra o ambiente externo. Quando as células da pele sofrem mutações no seu ADN — maioritariamente causadas pela radiação UV — podem dividir-se de forma descontrolada e originar tumores malignos.
Portugal apresenta radiação UV entre as mais elevadas da Europa, especialmente nas regiões do Alentejo e Algarve, onde o índice UV pode atingir valores 8-11 (classificados como “muito alto” pela OMS) durante os meses de verão. A isto acresce uma cultura histórica de exposição solar intensa e, durante décadas, uso insuficiente de protecção.
Segundo o IPO de Lisboa, o cancro da pele é actualmente um dos tumores malignos mais frequentes em Portugal, com incidências particularmente elevadas nos distritos do Porto, Aveiro e Faro.
Os três tipos principais de cancro da pele
1. Carcinoma Basocelular (Basalioma)
É o mais comum e o menos agressivo. Raramente metastiza, mas pode crescer localmente e destruir tecidos adjacentes se não tratado. Em Portugal, a incidência é de cerca de 67 novos casos por 100.000 habitantes por ano. Manifesta-se tipicamente como uma lesão perlada, translúcida ou com pequenos vasos visíveis, frequentemente no rosto, pescoço e orelhas.
2. Carcinoma Espinocelular
O segundo mais comum, com 17 casos por 100.000 habitantes/ano em Portugal. Mais agressivo que o basocelular, pode metastizar para os gânglios linfáticos. Aparece frequentemente em áreas de exposição crónica ao sol: face, orelhas, lábio inferior, mãos.
3. Melanoma
O menos comum mas o mais perigoso: 8 a 10 novos casos por 100.000 habitantes/ano, com cerca de 1.500 diagnósticos anuais em Portugal e aproximadamente 250 mortes. Origina-se nos melanócitos (células pigmentadas) e tem alta capacidade metastática. A incidência de melanoma cresce 4 a 8% ao ano a nível global.
A regra ABCDE: como identificar um sinal suspeito
A maioria dos melanomas surge como uma lesão nova ou uma alteração num sinal pré-existente. A regra ABCDE é a ferramenta mais utilizada mundialmente para identificar sinais de alerta:
- A — Assimetria: metade da lesão não é espelho da outra. Os sinais benignos são geralmente simétricos.
- B — Bordos: contornos irregulares, recortados, mal definidos ou com “projecções” são suspeitos.
- C — Cor: variações de cor dentro da mesma lesão (castanho claro, escuro, preto, vermelho, azul ou branco) devem ser avaliadas.
- D — Diâmetro: lesões com mais de 6mm (o tamanho de uma borracha de lápis) merecem atenção, embora melanomas possam ser menores.
- E — Evolução: qualquer alteração recente em tamanho, forma, cor, relevo ou sintomas (comichão, sangramento) é sinal de alerta.
O auto-exame mensal da pele, de preferência com ajuda de um espelho e boa iluminação, é recomendado pela Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo. Sinais em áreas de difícil visualização (costas, couro cabeludo, entre os dedos dos pés) devem ser verificados por outra pessoa ou fotografados regularmente.
Protecção solar: o que a ciência diz (e o que muita gente faz errado)
O protetor solar é a intervenção individual mais eficaz na prevenção do cancro da pele — mas a maioria das pessoas usa-o de forma incorrecta.
Qual o FPS adequado?
Os dermatologistas portugueses recomendam FPS (Factor de Protecção Solar) de pelo menos 30 para exposição diária normal, e FPS 50 ou superior para exposição directa prolongada ao sol — especialmente em crianças, pessoas de pele clara (fototipos I e II) e pessoas com muitos nevos.
Protecção UVA e UVB
Existem dois tipos de radiação UV nociva: UVB (causa queimaduras e carcinomas) e UVA (penetra mais profundamente, causa envelhecimento precoce e contribui para o melanoma). O FPS mede apenas a protecção contra UVB. Procure produtos com “protecção de largo espectro” ou “UVA+UVB” para protecção completa.
Os erros mais comuns
- Aplicar pouca quantidade (a dose correcta é cerca de 2mg/cm² — uma colher de chá para o rosto e pescoço, e 6 colheres de chá para o corpo)
- Não reaplicar (deve ser reaplicado de 2 em 2 horas, ou após banho ou transpiração intensa)
- Aplicar apenas quando vai à praia (a exposição crónica quotidiana, mesmo em dias nublados, é responsável pela maioria dos cancros não-melanoma)
- Confiar apenas em maquilhagem com SPF baixo como protecção suficiente
Protecção complementar
O protetor solar não é suficiente por si só. Os dermatologistas recomendam: chapéu de abas largas, óculos de sol com protecção UV certificada (marcação CE), roupas de protecção solar (UPF ≥ 50), e evitar a exposição entre as 11h e as 17h — o período de maior intensidade UV em Portugal.
Grupos de maior risco
Certas pessoas têm risco acrescido e devem ter vigilância dermatológica regular (pelo menos anual):
- Fototipos I e II: pele muito clara, olhos claros, cabelo ruivo ou loiro, tendência para queimaduras
- Mais de 50 nevos (sinais) no corpo, ou nevos displásicos (atípicos)
- Historial de queimaduras solares graves na infância ou adolescência — uma queimadura bolhosa antes dos 18 anos duplica o risco de melanoma (British Journal of Dermatology)
- Historial familiar de melanoma
- Trabalhadores ao ar livre — agricultores, pescadores, jardineiros, construtores
- Imunossuprimidos — transplantados, pessoas com VIH, em quimioterapia
- Uso passado de solários — aumenta o risco de melanoma em 75%, segundo a OMS
Diagnóstico precoce: porque é que importa tanto
O prognóstico do melanoma depende criticamente da fase em que é diagnosticado:
- Fase I (local, menos de 1mm): taxa de sobrevivência a 5 anos superior a 98%
- Fase II (local, mais espesso): 80-90%
- Fase III (atingiu gânglios linfáticos): 40-60%
- Fase IV (metástases distantes): 20-30%
O carcinoma basocelular e espinocelular diagnosticados precocemente são curáveis em mais de 95% dos casos com cirurgia simples.
Em Portugal, a consulta de Dermatologia no SNS é gratuita mas com lista de espera. Em caso de lesão suspeita ou sinal com alteração recente, peça referenciação ao médico de família com carácter de urgência.
Campanha nas praias e rastreio gratuito
A Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo (APCC) realiza anualmente rastreios gratuitos de cancro da pele nas praias portuguesas durante o verão. Procure os postos de rastreio identificados com o logótipo da campanha Euromelanoma — a iniciativa chega a mais de 20 praias de norte a sul do país.
Fontes: IPO Lisboa; RTP Notícias; Medis Saúde; Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo; Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional (RPSO); Lusíadas Saúde; British Journal of Dermatology; OMS — Radiation: Ultraviolet (UV) radiation and skin cancer; OECD/EU Cancer Country Profile Portugal 2025.
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
0 Comments