A artrose é a doença articular mais comum no mundo — e provavelmente a mais mal compreendida. Durante décadas, foi encarada como uma consequência inevitável do envelhecimento, uma questão de “desgaste” sobre a qual havia pouco a fazer além de esperar pela prótese. A investigação dos últimos 20 anos mudou substancialmente esta narrativa: a artrose tem factores de risco modificáveis, o exercício físico é o tratamento mais eficaz disponível, e determinados mitos persistentes estão activamente a prejudicar os doentes.
O que é a artrose: além do “desgaste”
A artrose (osteoartrite) é uma doença de toda a articulação — não apenas da cartilagem. Envolve a cartilagem articular, o osso subcondral, a membrana sinovial, os tendões e os ligamentos. A ideia de que é simplesmente “desgaste” mecânico subestima a complexidade do processo: há inflamação de baixo grau, remodelação óssea, e alterações nos tecidos moles que contribuem para a progressão.
Em Portugal, a artrose afecta cerca de 850.000 pessoas, segundo dados do Observatório Nacional das Doenças Reumáticas (EpiReumaPt). As localizações mais comuns — e as que cresceram mais nas pesquisas em 2024-2025 — são:
- Joelho (gonartrose): Mais prevalente, frequentemente bilateral
- Anca (coxartrose): Alta taxa de incapacidade; candidata frequente a prótese
- Coluna cervical: Queries BREAKOUT: “artrose cervical” cresceu +620% — muitas pessoas com cervicalgia descobrem artrose nas radiografias
- Coluna lombar: Confundida frequentemente com hérnia discal
- Ombro: Menos comum mas frequentemente subdiagnosticada
- Mãos: Nódulos de Heberden e Bouchard nos dedos; frequente após menopausa
Os factores de risco: o que pode controlar
A artrose não é inevitável. Tem factores de risco não modificáveis e modificáveis:
Não modificáveis
- Idade: Prevalência aumenta com a idade — mas artrose não é sinónimo de envelhecimento; muitos idosos não a desenvolvem
- Sexo feminino: Especialmente após a menopausa (o estrogénio tem papel protector na cartilagem)
- Genética: Predisposição hereditária, especialmente para artrose das mãos
- Lesões articulares prévias: Ruptura do ligamento cruzado anterior aumenta drasticamente o risco de gonartrose
Modificáveis — onde pode agir
- Excesso de peso: O factor de risco modificável mais importante. Cada kg extra impõe 3-4 kg de carga adicional no joelho a cada passo. Uma redução de 5 kg reduz o risco de desenvolver gonartrose em 50%.
- Sedentarismo: Paradoxalmente, não usar as articulações é prejudicial — a cartilagem não tem vasos sanguíneos e depende do movimento articular para receber nutrientes do líquido sinovial
- Actividade profissional com carga articular repetitiva: Trabalho em joelhos (calceteiros, carpinteiros), carga de peso, vibração
- Desalinhamento articular: Joelho valgo (para dentro) ou varo (para fora) — tratável com calçado orto-pédico ou exercícios específicos
Os sintomas: como reconhecer
- Dor: Geralmente mecânica — piora com o uso e melhora com o repouso. Nas fases avançadas pode surgir em repouso ou à noite.
- Rigidez matinal: Caracteristicamente curta (menos de 30 minutos) — distingue da artrite reumatoide, onde a rigidez dura mais de 1 hora
- Crepitação: Sensação de ranger ou estalidos na articulação em movimento
- Tumefacção: Nas fases com inflamação activa, pode haver derrame articular
- Limitação de movimento: Dificuldade em fazer a amplitude de movimento completa
O diagnóstico: o que as imagens mostram (e o que não mostram)
O diagnóstico de artrose é essencialmente clínico — sintomas + exame físico. A radiografia confirma e estadeia, mas tem limitações importantes:
- Discordância radio-clínica: É muito comum encontrar radiografias com alterações graves em pessoas sem sintomas relevantes, e pessoas com dor intensa com alterações radiológicas mínimas. A gravidade das imagens não prediz a gravidade dos sintomas.
- Coluna cervical: A maioria dos adultos acima dos 50 anos tem “sinais de artrose” na cervical — isso não significa que a cervicalgia seja causada pela artrose. A coluna cervical tem muitas estruturas que podem causar dor.
- RM (ressonância magnética): Mais sensível que a radiografia, mas frequentemente mostra alterações “normais para a idade” que podem ser mal interpretadas como causa da dor
A mensagem prática: não trate a radiografia, trate o doente. A correlação entre imagem e dor é fraca na artrose.
O mito do exercício: “vai desgastar mais as articulações”
Este é o mito mais prejudicial e mais persistente na artrose. A crença de que exercício piora a artrose ao “desgastar” ainda mais a cartilagem é falsa e está documentada como causa directa de pioria clínica nos doentes que a adoptam.
O que a evidência mostra:
- Meta-análises de alta qualidade (Cochrane, 2015; Fransen M et al., Lancet, 2015) demonstram que o exercício aeróbico e de fortalecimento muscular reduz a dor e melhora a função em doentes com gonartrose, com magnitude de efeito equivalente ao dos anti-inflamatórios — sem os seus efeitos adversos.
- O fortalecimento do quadricípite (músculo anterior da coxa) reduz a carga sobre o compartimento medial do joelho e é o exercício com mais evidência em gonartrose.
- Caminhada, natação, bicicleta estática e treino em piscina são seguros e eficazes — não causam progressão da artrose.
- O repouso prolongado atrofia o músculo que protege a articulação, piora a dor e acelera a progressão.
As guidelines OARSI 2019 (Osteoarthritis Research Society International) e EULAR 2023 classificam o exercício como tratamento de primeira linha, com nível de evidência máximo (1A), superior ao de qualquer fármaco disponível.
Tratamentos com evidência: o que funciona
1.ª linha (maior evidência)
- Exercício terapêutico — aeróbico + fortalecimento + equilíbrio
- Perda de peso (quando aplicável) — cada kg perdido reduz 4 kg de carga no joelho
- Educação e autogestão — compreender a doença reduz o catastrofismo e melhora os resultados
2.ª linha
- Paracetamol — eficácia modesta em artrose, mas perfil de segurança favorável para uso de curta duração
- Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) tópicos — diclofenac gel, eficácia comparável ao oral em artrose periférica com menos efeitos sistémicos
- AINEs orais — eficazes mas com riscos gastrointestinais e cardiovasculares em uso crónico; usar com precaução, especialmente em idosos
- Infiltrações de corticosteroides intra-articulares — alívio de curta duração (4-12 semanas) nas fases de inflamação activa
- Ácido hialurónico intra-articular — evidência controversa; algumas meta-análises mostram benefício modesto, outras não; não recomendado de forma sistemática nas guidelines mais recentes
Com evidência limitada ou insuficiente
- Glucosamina e condroitina: Os estudos mais rigorosos (GAIT trial, Arthritis & Rheumatism) não demonstraram superioridade em relação ao placebo para a maioria dos doentes. Podem ter efeito em subgrupos com artrose moderada a grave. Não prejudicam, mas o dinheiro pode ser melhor investido.
- Colágeno hidrolisado: Evidência emergente mas ainda insuficiente para recomendação sistemática.
- PRP (plasma rico em plaquetas): Resultados promissores em alguns estudos, mas qualidade metodológica variável. Não recomendado de forma rotineira.
Artrose cervical: o caso especial
A artrose cervical merece menção separada pela sua frequência e pelos equívocos que a rodeiam. “Artrose cervical” nas radiografias é quase universal após os 50-60 anos — mas a presença de alterações radiológicas não significa que são a causa das queixas.
- Cervicalgia (dor no pescoço) é muito comum e raramente causada por artrose — na maioria dos casos deve-se a tensão muscular, má postura ou factores psicossociais
- O tratamento de primeira linha é fisioterapia, exercício e — se necessário — analgesia de curta duração
- Cirurgia cervical raramente está indicada por artrose isolada sem compressão neurológica documentada
Quando considerar cirurgia
A artroplastia total (prótese) do joelho ou da anca é uma cirurgia de alta eficácia — com taxas de satisfação acima de 85% — mas deve ser considerada apenas quando:
- Dor intensa e incapacidade funcional significativa persistem apesar do tratamento conservador adequado (exercício, analgesia, fisioterapia durante pelo menos 3-6 meses)
- Qualidade de vida está comprometida de forma relevante
- Alterações radiológicas são consistentes com a clínica
A cirurgia não deve ser a primeira resposta à artrose confirmada radiologicamente sem tratamento conservador prévio adequado.
O que pode fazer agora
- Mova-se: 150 minutos de actividade física moderada por semana, adaptada à sua condição
- Fortaleça: Exercícios de fortalecimento do quadricípite e glúteos para artrose do joelho; rotadores da anca para coxartrose
- Controle o peso: 5-10% de perda de peso tem impacto mensurável na dor e na função
- Fisioterapia: Programa individualizado com um fisioterapeuta, especialmente para aprender os exercícios correctos
- Calçado adequado: Solas de amortecimento e palmilhas personalizadas podem reduzir a carga articular
- Evite repouso prolongado: Imobilização piora a artrose — o movimento moderado é terapêutico
Fontes: OARSI — Osteoarthritis: A Serious Disease (2016); EULAR — Recommendations for the management of knee and hip osteoarthritis (2023); Fransen M et al. “Exercise for osteoarthritis of the knee” — Cochrane Database (2015); Bannuru RR et al. “OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis” — Osteoarthritis and Cartilage (2019); Raynauld JP et al. — Arthritis & Rheumatism (GAIT trial); EpiReumaPt — Estudo Epidemiológico das Doenças Reumáticas em Portugal (2015); DGS — Programa Nacional Contra as Doenças Reumáticas.
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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