O magnésio está envolvido em mais de 300 reacções bioquímicas no organismo — desde a produção de energia (ATP) até à síntese de ADN, passando pela regulação do sistema nervoso, da função muscular e do ritmo cardíaco. É o quarto mineral mais abundante no corpo humano. E no entanto, os dados do Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física (IAN-AF) mostram que uma parte significativa dos adultos portugueses não atinge a ingestão adequada. O problema não é apenas a quantidade — é também a forma que a maioria das pessoas toma.
Para que serve o magnésio: funções que surpreendem
- Produção de energia: O magnésio é co-factor essencial para a produção de ATP — a molécula de energia de todas as células. Défice de magnésio = fadiga celular.
- Sistema nervoso: Regula os receptores NMDA (glutamato), que controlam a excitabilidade neuronal. Défice está associado a ansiedade, irritabilidade e dificuldade em “desligar”.
- Sono: Activador do sistema GABA (neurotransmissor inibitório), o magnésio facilita o relaxamento e o adormecimento.
- Função muscular: Regula a contracção e relaxamento muscular. Défice causa cãibras, tensão muscular e palpitações.
- Saúde óssea: 60% do magnésio do organismo está nos ossos. Trabalha em conjunto com cálcio e vitamina D — sem magnésio, a vitamina D não se activa correctamente.
- Controlo glicémico: Melhora a sensibilidade à insulina. Défice crónico está associado a maior risco de diabetes tipo 2.
- Tensão arterial: Relaxa o músculo liso vascular. Meta-análises associam maior ingestão a menor pressão arterial sistólica.
Porque estamos em défice: as causas modernas
O défice de magnésio é um fenómeno moderno com causas estruturais:
- Empobrecimento dos solos: A agricultura intensiva nas últimas décadas reduziu o teor de magnésio nos solos — e consequentemente nos alimentos cultivados. Um estudo britânico comparou tabelas de composição de alimentos de 1940 e 1991 e documentou reduções de 20-30% no magnésio de vegetais e cereais.
- Alimentos ultra-processados: O refinamento de cereais remove até 80% do magnésio presente no grão inteiro. Pão branco, massa refinada, cereais de pequeno-almoço processados têm pouco magnésio.
- Stress crónico: O cortisol aumenta a excreção urinária de magnésio. Quem vive sob stress crónico esgota as reservas mais rapidamente — e o défice resultante piora os próprios sintomas de stress.
- Álcool: Aumenta a excreção renal de magnésio; consumo habitual contribui significativamente para o défice.
- Medicamentos: Inibidores da bomba de protões (omeprazol, pantoprazol) — amplamente prescritos em Portugal — reduzem a absorção intestinal de magnésio. Alguns diuréticos aumentam a excreção renal.
- Diabetes tipo 2: A hiperglicémia aumenta a excreção urinária de magnésio — criando um ciclo vicioso.
Sintomas de défice: reconhecer o padrão
O défice de magnésio raramente causa sintomas isolados e específicos — manifesta-se como um conjunto de queixas que são frequentemente atribuídas a stress, cansaço geral ou envelhecimento:
- Cãibras musculares, especialmente nocturnas (pernas, pés)
- Fadiga persistente e sensação de não descansar mesmo dormindo
- Insónia ou sono não reparador
- Ansiedade, nervosismo, irritabilidade sem causa aparente
- Palpitações cardíacas (perturbações do ritmo por alteração dos canais de cálcio/potássio)
- Cefaleias e enxaquecas frequentes
- Obstipação
- Tensão muscular crónica (ombros, pescoço)
O problema das análises: porque o magnésio sérico engana
O magnésio sérico (medido em análises de rotina) é um indicador enganador: apenas 1% do magnésio total do organismo está no sangue — o resto está nos ossos (60%) e nas células (39%). O organismo regula o magnésio sérico com prioridade, mesmo quando as reservas intracelulares estão esgotadas.
Isto significa que pode ter um nível sérico “normal” e estar em défice funcional significativo. O exame mais fiável é o magnésio eritrocitário (RBC magnesium), que mede o magnésio dentro dos glóbulos vermelhos — mas raramente é pedido em rotina. Na prática clínica, o défice de magnésio é frequentemente diagnosticado e tratado empiricamente com base nos sintomas.
As formas de magnésio: a diferença que a maioria não conhece
Não existe “o magnésio” — existem várias formas com biodisponibilidade e efeitos muito diferentes. Comprar o suplemento mais barato pode significar absorver muito pouco do que está no rótulo:
Óxido de magnésio
A forma mais barata e mais comum nos multivitamínicos. Biodisponibilidade muito baixa (~4%). A maior parte não é absorvida e chega ao cólon, onde tem efeito laxante. Útil para obstipação; fraca escolha para corrigir défice sistémico.
Citrato de magnésio
Boa biodisponibilidade (~20-30%). Bem absorvido, económico, amplamente disponível. Pode causar fezes moles em doses elevadas. Boa opção para uso geral.
Bisglicinato de magnésio (glicinato)
Alta biodisponibilidade, sem efeito laxante, excelente tolerância gastrointestinal. A glicina (aminoácido ao qual o magnésio está ligado) tem efeito calmante adicional. Melhor forma para ansiedade, insónia e uso crónico. Mais caro que o citrato.
L-treonato de magnésio (Magtein)
Forma mais recente. Atravessa a barreira hemato-encefálica de forma mais eficaz do que outras formas. Estudos em roedores (e alguns ensaios humanos preliminares) mostram melhoria da memória e função cognitiva. Muito mais caro. Evidência ainda limitada em humanos mas promissora para saúde cerebral.
Malato de magnésio
Ligado ao ácido málico. Associado a melhoria da energia e redução da fadiga muscular. Alguns estudos em fibromialgia mostram benefícios. Boa opção para fadiga crónica e dor muscular.
Cloreto de magnésio
Boa absorção, económico. Disponível em forma oral e tópica (sprays, sais de banho). A absorção transdérmica (pela pele) é real mas modesta — não substitui a suplementação oral para défices significativos.
Doses: quanto tomar na prática
- Dose diária recomendada (DRI): 310-320 mg/dia para mulheres adultas; 400-420 mg/dia para homens adultos
- Ingestão alimentar típica em Portugal: Muitas pessoas ficam abaixo das necessidades apenas pela alimentação
- Dose de suplementação habitual: 200-400 mg de magnésio elementar/dia (atenção: verifique o magnésio elementar no rótulo, não o peso total do composto)
- Limite superior tolerável (EFSA): 250 mg/dia de magnésio suplementar (para adultos saudáveis sem prescrição médica); acima disto pode causar diarreia
- Melhor altura para tomar: Ao jantar ou antes de deitar — aproveita o efeito relaxante; evita tomar ao mesmo tempo que cálcio em doses elevadas (competição pela absorção)
Fontes alimentares: os melhores alimentos por porção
- Sementes de abóbora (30g): 150 mg — uma das fontes mais concentradas disponíveis
- Amêndoas (30g): 75 mg — fáceis de incluir como lanche
- Chocolate negro 70%+ (30g): 50 mg — e outros benefícios flavonóides
- Feijão preto cozido (100g): 70 mg
- Espinafres cozidos (100g): 80 mg
- Quinoa cozida (100g): 64 mg
- Sardinha em lata (100g): 30 mg
- Banana: 30 mg — contribuição modesta mas regular
Uma dieta equilibrada baseada em alimentos integrais, leguminosas, nozes e vegetais pode cobrir as necessidades. Dietas ricas em ultra-processados raramente o conseguem.
Fontes: EFSA — Dietary Reference Values for Magnesium (2015); IAN-AF — Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física (INSA); NIH Office of Dietary Supplements — Magnesium Fact Sheet; Abbasi B et al. “The effect of magnesium supplementation on primary insomnia in elderly” — Journal of Research in Medical Sciences (2012); Veronese N et al. “Effect of magnesium supplementation on glucose metabolism in people with or at risk of diabetes” — European Journal of Clinical Nutrition (2016); Boyle NB et al. “The Effects of Magnesium Supplementation on Subjective Anxiety and Stress” — Nutrients (2017).
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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