Menopausa: O que Mudou na Ciência em 20 Anos — e Porque a TRH já não é o Que Pensava


0

Em 2002, um grande estudo americano — o Women’s Health Initiative (WHI) — gerou manchetes que assustaram milhões de mulheres em todo o mundo: a terapia hormonal de reposição (TRH) aumentava o risco de cancro da mama e doença cardiovascular. Em Portugal, como no resto da Europa, as prescrições de TRH caíram a pique. Muitas mulheres foram aconselhadas a “aguentar” os afrontamentos, a insónia e as alterações de humor sem ajuda hormonal. Vinte anos depois, a ciência corrigiu esta narrativa de forma substancial — e muitas mulheres continuam sem saber.

O que é a menopausa — e quando começa realmente

A menopausa define-se retrospectivamente: são 12 meses consecutivos sem menstruação, em mulheres sem outra causa identificável. A idade média em Portugal é 51 anos. Mas o processo começa anos antes — na perimenopausa, uma fase de transição que pode durar 4 a 10 anos e que frequentemente passa despercebida ou é mal interpretada.

📬 Saúde preventiva na sua caixa de correio
📋 Checklist gratuita — 47 pontos de controlo · Um artigo por semana, cancele quando quiser.

LIKE WHAT YOU'RE READING?
subscribe to our top stories

Ao subscrever, aceita os nossos Termos e Aviso Legal. Pode cancelar a qualquer momento.

Don't worry, we don't spam

Durante a perimenopausa, os ciclos menstruais tornam-se irregulares, os níveis de estrogénio e progesterona oscilam de forma imprevisível, e surgem os primeiros sintomas. É nesta fase que muitas mulheres começam a sentir alterações — e que a pesquisa por “perimenopausa sintomas” disparou em Portugal.

Mulher na fase da menopausa, saúde e bem-estar

Os sintomas: muito mais do que afrontamentos

A maioria das pessoas associa a menopausa aos afrontamentos (ou “fogachos”). Mas o espectro de sintomas é muito mais vasto:

Sintomas vasomotores

  • Afrontamentos (hot flashes): Sensação súbita de calor intenso, geralmente na face, pescoço e peito. Afetam 75-80% das mulheres na peri/menopausa. A duração média é 7 anos, mas pode estender-se a mais de uma década.
  • Suores noturnos: Afrontamentos durante o sono, que interrompem o sono e contribuem para fadiga crónica diurna.

Sintomas genitourinários

  • Secura vaginal: Afeta 50-60% das mulheres pós-menopausa. Ao contrário dos afrontamentos, não melhora com o tempo — piora progressivamente sem tratamento.
  • Disfunção urológica: Infeções urinárias recorrentes, urgência urinária, incontinência de esforço — todas ligadas à atrofia do tecido urogenital por défice estrogénico.

Sintomas neuro-cognitivos e emocionais

  • Insónia e alterações da qualidade do sono
  • Ansiedade, irritabilidade, baixo limiar de tolerância ao stress
  • Dificuldades de concentração (“brain fog”) e memória
  • Humor deprimido — risco de depressão aumenta 2-3x na perimenopausa

Consequências a longo prazo

  • Osteoporose: O estrogénio protege a densidade óssea. Nos 5 anos após a menopausa, as mulheres podem perder até 20% da sua massa óssea.
  • Risco cardiovascular: Antes da menopausa, as mulheres têm menor risco cardiovascular do que os homens; após, este risco aproxima-se e pode ultrapassar o masculino.
  • Composição corporal: Redistribuição de gordura para a região abdominal, mesmo sem aumento de peso — associada a maior risco metabólico.

O estudo WHI de 2002: o que correu mal na interpretação

O Women’s Health Initiative estudou mais de 160.000 mulheres americanas. Os resultados publicados em 2002 mostraram aumento do risco de cancro da mama e eventos cardiovasculares no grupo a fazer TRH — e geraram o pânico que levou ao abandono massivo da terapêutica.

O que raramente foi dito nas manchetes:

  • O estudo usou estrogénio equino conjugado (de urina de égua grávida) + acetato de medroxiprogesterona (MPA), um progestagénio sintético — não são as moléculas usadas na TRH moderna.
  • A idade média das participantes era 63 anos — muito além da janela ótima de início de TRH (nos 10 anos após a menopausa). Iniciar TRH nesta fase tardia tem perfil de risco muito diferente.
  • O aumento absoluto do risco de cancro da mama era de 8 casos adicionais por 10.000 mulheres por ano — comparável ao risco de beber um copo de vinho por dia.
  • A re-análise posterior do WHI, com dados mais granulares por idade, confirmou que mulheres que iniciaram TRH nos primeiros 10 anos após a menopausa tinham redução de eventos cardiovasculares.

O que a ciência diz em 2024: a janela de oportunidade

As guidelines atuais — NICE (2023), The Menopause Society (2022), European Menopause and Andropause Society — convergem num ponto fundamental: para mulheres saudáveis com sintomas moderados a graves, com menos de 60 anos ou nos primeiros 10 anos após a menopausa, os benefícios da TRH superam os riscos.

A TRH moderna utiliza:

  • Estradiol transdérmico (em adesivo, gel ou spray) — evita a primeira passagem hepática, perfil de risco diferente do estrogénio oral
  • Progesterona micronizada — a forma “body-identical”, com perfil de segurança superior ao MPA do estudo WHI

Múltiplos estudos de longa duração, incluindo a reanálise do próprio WHI e estudos europeus como o DOPS (Dinamarca), confirmam que a TRH com estradiol transdérmico + progesterona micronizada não aumenta o risco de cancro da mama (ao contrário da combinação original estudada em 2002) e está associada a menor risco cardiovascular quando iniciada cedo.

Quem beneficia mais da TRH

  • Menopausa precoce (antes dos 45 anos) ou cirúrgica: TRH recomendada até pelo menos aos 51 anos, para proteção óssea e cardiovascular
  • Sintomas vasomotores moderados a graves que afetam a qualidade de vida e o sono
  • Risco aumentado de osteoporose: TRH é uma das poucas intervenções que simultaneamente alivia sintomas e protege o osso
  • Atrofia genitourinária: Estrogénio tópico local é muito eficaz, com absorção sistémica mínima

Quem deve ter precaução ou considerar alternativas: história pessoal (não familiar) de cancro da mama hormono-dependente, tromboembolismo venoso, doença cardiovascular ativa. A decisão é sempre individualizada com o médico.

TRH e o risco de demência: o que diz a revisão mais recente

Uma dúvida frequente é se a TRH protege — ou, pelo contrário, aumenta o risco — de declínio cognitivo e demência a longo prazo. Uma revisão sistemática publicada na Lancet Healthy Longevity em dezembro de 2025, com dados de mais de 1 milhão de mulheres e encomendada pela Organização Mundial da Saúde para sustentar a atualização de 2026 das suas diretrizes sobre redução do risco de demência, não encontrou associação entre o uso de TRH e o risco de défice cognitivo ligeiro ou demência — nem para mais, nem para menos, independentemente do momento de início, da duração ou do tipo de TRH utilizada.

A conclusão clínica que resulta desta evidência é direta: a decisão de fazer TRH deve continuar a basear-se nos benefícios e riscos já discutidos neste artigo — sintomas vasomotores, saúde óssea, saúde cardiovascular — e não como estratégia de prevenção de demência. Em fevereiro de 2026, a FDA aprovou mesmo a remoção do aviso de “demência provável” que constava no aviso de destaque (“boxed warning”) de vários medicamentos de TRH, precisamente com base nesta evidência mais robusta. Para uma visão mais ampla dos fatores de risco modificáveis de demência — onde a TRH é apenas um entre vários fatores considerados pela OMS — ver Declínio Cognitivo e Demência: os 14 Fatores de Risco Modificáveis Segundo a OMS.

Alternativas quando a TRH não é indicada

  • Fezolinetante (Veoza): Novo medicamento não hormonal aprovado pela EMA em 2023, especificamente para afrontamentos moderados a graves — reduz a frequência em 60-70%
  • Antidepressivos (ISRS/ISRNS): Paroxetina, venlafaxina — eficácia moderada para afrontamentos (não aprovados para esta indicação em Portugal)
  • Fitoestrógenos: Isoflavonas de soja — evidência inconsistente, alguns estudos mostram redução modesta dos afrontamentos
  • Terapia cognitivo-comportamental (TCC): Eficaz para afrontamentos e insónia na menopausa — recomendada pelo NICE como alternativa não farmacológica de 1.ª linha

O que pode fazer agora: medidas práticas com evidência

  • Exercício aeróbico e de resistência: Reduz a frequência e intensidade dos afrontamentos, preserva a massa óssea e muscular, melhora o humor
  • Cálcio e vitamina D: Essenciais para a saúde óssea na pós-menopausa — 1200 mg de cálcio/dia e 800-2000 UI de D3/dia
  • Dieta mediterrânica: Associada a menor prevalência e gravidade de sintomas vasomotores em estudos observacionais
  • Higiene do sono: Temperatura do quarto fresca (18-19°C), evitar álcool (agrava os afrontamentos), horários regulares
  • Reduzir álcool e tabaco: Ambos agravam os afrontamentos e o risco cardiovascular e ósseo pós-menopausal

Quando falar com o médico

A menopausa não é uma doença — mas as suas consequências a longo prazo, se não geridas, têm impacto real na saúde. O médico de família pode:

  • Avaliar sintomas e impacto na qualidade de vida
  • Prescrever TRH quando indicada, ou referenciar para consulta de ginecologia/endocrinologia
  • Pedir DEXA (densitometria óssea) para avaliação de osteoporose
  • Monitorizar o risco cardiovascular

Em Portugal, as consultas de menopausa existem em vários hospitais e clínicas — a referenciação pode ser pedida ao médico de família pelo SNS.


Fontes: NICE — Menopause: diagnosis and management (NG23, atualizado 2023); The Menopause Society (anteriormente NAMS) — 2022 Hormone Therapy Position Statement; European Menopause and Andropause Society (EMAS) — Guidelines on HRT; Rossouw JE et al. — “Risks and benefits of estrogen plus progestin in healthy postmenopausal women” — JAMA (2002); Schierbeck LL et al. — “Effect of hormone replacement therapy on cardiovascular events in recently postmenopausal women: randomised trial” — BMJ (2012); Melville M, He L, Desai R, et al. — “Menopause hormone therapy and risk of mild cognitive impairment or dementia: a systematic review and meta-analysis” — Lancet Healthy Longevity (2025); World Health Organization — Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines, second edition (2026); U.S. Food and Drug Administration — FDA Approves Labeling Changes for Menopausal Hormone Therapy Products (2026); DGS — Saúde da Mulher na Menopausa.

Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.

Este artigo foi útil?

O HealthPrev é gratuito e independente. Um donativo — mesmo pequeno — ajuda a publicar mais artigos como este.

2€ · 5€ · 10€ — ou o montante que preferir · via PayPal


Like it? Share with your friends!

0
Equipa Editorial HealthPrev
A Equipa Editorial da HEALTHPREV sintetiza evidência científica publicada (PubMed, Cochrane, ESC, DGS, INSA) para artigos de saúde preventiva em português. Não somos profissionais de saúde — os nossos artigos têm fins educativos e não substituem consulta médica. Processo editorial completo em /como-trabalhamos/.

2 Comments

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

|