Tensão Arterial Alta: Os Valores que Deve Conhecer — e o que Pode Fazer Antes de Tomar Medicação


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Em Portugal, estima-se que mais de 40% dos adultos têm hipertensão arterial — e quase metade não sabe que tem. O estudo PHYSA (Portugal Hypertension and Salt) confirmou este paradoxo: a tensão arterial alta é uma das condições mais prevalentes no país e, simultaneamente, uma das mais subdiagnosticadas. Não dói, não cansa, não avisa. Mas trabalha silenciosamente para danificar artérias, coração, rins e cérebro durante anos antes de se manifestar.

O que é a tensão arterial e porque sobe

A tensão arterial é a pressão exercida pelo sangue nas paredes das artérias enquanto o coração bombeia. Exprime-se em dois valores: a pressão sistólica (o pico de pressão quando o coração contrai, o número de cima) e a pressão diastólica (a pressão entre batimentos, quando o coração relaxa, o número de baixo).

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A hipertensão arterial (HTA) instala-se quando esta pressão se mantém cronicamente elevada. As artérias — que são elásticas — ficam sujeitas a um esforço constante: as paredes espessam, perdem elasticidade, e as células do endotélio (a camada interna dos vasos) ficam sob stress permanente. É este dano progressivo que, ao longo de anos, aumenta o risco de enfarte do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência renal e demência.

Estetoscópio e medicação para controlo da tensão arterial

Os valores que deve conhecer — as novas guidelines europeias 2023

As guidelines da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC 2023) actualizaram a classificação. Ao contrário do que muita gente pensa, 140/90 mmHg não é o ponto de partida da preocupação — é já hipertensão grau 2:

  • Tensão óptima: abaixo de 120/80 mmHg
  • Tensão normal: 120-129 / 80-84 mmHg
  • Tensão normal-alta: 130-139 / 85-89 mmHg — zona de vigilância activa
  • Hipertensão Grau 1: 140-159 / 90-99 mmHg — intervenção indicada, com ou sem medicação consoante o risco global
  • Hipertensão Grau 2: 160-179 / 100-109 mmHg — medicação geralmente necessária
  • Hipertensão Grau 3: ≥ 180/110 mmHg — avaliação médica urgente
  • Crise hipertensiva: acima de 180/120 mmHg com sintomas — emergência médica

Um em cada três portugueses adultos tem tensão normal-alta ou HTA Grau 1 — e muitos desconhecem-no porque nunca tiveram sintomas.

Sintomas de hipertensão: uma lista que surpreende pela sua brevidade

Na esmagadora maioria dos casos: nenhum. A hipertensão não causa dor de cabeça crónica (este é um dos mitos mais persistentes — as cefaleias occipitais matinais surgem apenas em casos de HTA muito elevada). Não causa fadiga específica, visão turva frequente, ou outros sinais reconhecíveis. É por isso que se chama “o assassino silencioso”.

Os sinais que podem surgir — rubor facial, palpitações ocasionais, zumbidos — são inespecíficos e comuns a muitas outras condições. A única forma de saber é medir.

O que causa hipertensão em Portugal: o sal oculto

Portugal tem um dos consumos de sal mais elevados da Europa. A OMS recomenda menos de 5g de sal por dia (equivalente a 2g de sódio); os portugueses consomem em média 7-8g. Mas o problema não está no saleiro:

  • Pão: Uma fatia de pão tipo saloio pode conter 300-400 mg de sódio. Em Portugal, o pão é uma das maiores fontes ocultas de sal — vários estudos do INSA documentam teores superiores a 1,2g de sal por 100g.
  • Charcutaria e enchidos: Presunto, chouriço, salame — 2g de sal ou mais por 100g. O consumo frequente é uma das causas mais subestimadas de HTA em Portugal.
  • Queijos curados: 1,5-2,5g de sal por 100g nos queijos mais curados.
  • Conservas e enlatados: Sardinha em lata, atum em lata, leguminosas enlatadas — podem ter 1-2g de sódio por porção.
  • Molhos e temperos industriais: Molho de soja, caldos concentrados, molhos de tomate — concentrações de sal muito elevadas em pequenas quantidades.

A redução de 5g/dia de sal para 3g/dia — uma mudança alcançável sem eliminar o sal completamente — reduz a pressão sistólica em média 5-7 mmHg, um efeito comparável ao de alguns anti-hipertensores.

Outros factores modificáveis que controlam a tensão

Actividade física

150 minutos de actividade aeróbica moderada por semana (caminhar a passo rápido, nadar, andar de bicicleta) reduzem a pressão sistólica em 4-9 mmHg, segundo múltiplas meta-análises. O efeito é dose-dependente: mais exercício, mais benefício.

Dieta DASH e mediterrânica

A dieta DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension), testada em ensaios clínicos publicados no New England Journal of Medicine, reduz a pressão sistólica em 8-14 mmHg em pessoas com HTA — sem medicação. Os princípios: mais frutas, vegetais, leguminosas, peixes gordos e laticínios magros; menos carne vermelha, sal e açúcar adicionado. A dieta mediterrânica partilha estes princípios e tem evidência similar.

Álcool

Consumo acima de 14 unidades por semana (para homens) ou 7 unidades (para mulheres) aumenta significativamente a pressão arterial. O efeito é linear: cada redução de 10g/dia de etanol reduz a sistólica em 1-2 mmHg.

Peso e perímetro abdominal

Cada kg de peso perdido reduz a pressão sistólica em aproximadamente 1 mmHg. A adiposidade abdominal — perímetro abdominal acima de 88 cm nas mulheres e 102 cm nos homens — tem correlação mais forte com HTA do que o IMC isolado.

Tabagismo

Cada cigarro provoca um aumento agudo da tensão arterial de 5-10 mmHg durante 30-45 minutos. O tabagismo crónico acelera a aterosclerose e aumenta o risco de HTA secundária.

Como medir correctamente a tensão em casa

A medição domiciliária é recomendada pelas ESC 2023 porque elimina o efeito de “bata branca” (HTA apenas na presença do médico, que afecta 15-30% dos doentes). Para medições fiáveis:

  • Usar um aparelho de braço validado (verificar lista da European Society of Hypertension — evitar aparelhos de pulso)
  • Sentar em repouso durante 5 minutos antes da medição
  • Não fumar, beber café ou fazer exercício nos 30 minutos anteriores
  • Apoiar o braço ao nível do coração
  • Fazer 2 medições com 1-2 minutos de intervalo e registar a média
  • Medir de manhã (antes da medicação e da refeição) e ao final da tarde, durante 7 dias consecutivos

Em casa, os valores normais são ligeiramente mais baixos do que no consultório: HTA domiciliária define-se como ≥ 135/85 mmHg (em vez de 140/90 no consultório).

Quando é necessária medicação

A decisão de medicar não depende apenas do valor de tensão, mas do risco cardiovascular global, calculado com base em: idade, sexo, colesterol LDL, diabetes, tabagismo, antecedentes familiares e presença de lesão de órgão-alvo (coração, rins, retina).

  • HTA Grau 1, risco baixo-moderado: 3-6 meses de modificação do estilo de vida antes de ponderar medicação
  • HTA Grau 1, risco alto: medicação recomendada desde o início, com modificação do estilo de vida
  • HTA Grau 2 ou Grau 3: medicação geralmente iniciada de imediato

Os anti-hipertensores mais utilizados pertencem a cinco classes: inibidores da ECA (exemplo: ramipril), antagonistas dos receptores da angiotensina II (exemplo: olmesartan), bloqueadores dos canais de cálcio (exemplo: amlodipina), diuréticos tiazídicos e beta-bloqueantes. A escolha depende do perfil do doente e de condições associadas. A medicação para a tensão nunca deve ser interrompida sem indicação médica — o efeito rebote pode ser perigoso.

Rastreio: quando medir a tensão

A DGS recomenda medição da tensão arterial:

  • A partir dos 18 anos, pelo menos de 2 em 2 anos se os valores forem normais
  • Anualmente a partir dos 40 anos, ou se houver factores de risco
  • Com maior frequência em diabéticos, obesos, fumadores e com história familiar de HTA

A medição é feita no centro de saúde pelo médico de família ou enfermeiro, no âmbito dos exames de saúde periódicos do SNS. Farmácias com serviços de saúde também disponibilizam medições sem custo.


Fontes: Sociedade Europeia de Cardiologia — 2023 ESH Guidelines for the Management of Arterial Hypertension; DGS — Norma de Orientação Clínica sobre Hipertensão Arterial no Adulto; Estudo PHYSA — Portugal Hypertension and Salt Study; DASH Collaborative Research Group — “A clinical trial of the effects of dietary patterns on blood pressure” — New England Journal of Medicine (1997); OMS — SHAKE Technical Package for Salt Reduction (2016); Cochrane Reviews — “Lifestyle interventions for hypertension”.

Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.


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