Colesterol alto é um dos diagnósticos mais comuns nos consultórios médicos portugueses — e um dos mais mal compreendidos. Quando o médico diz “o seu colesterol está alto”, a maioria das pessoas fica alarmada mas pouco esclarecida: alto como? Que tipo? O que fazer? Em Portugal, estima-se que mais de 60% dos adultos têm níveis de colesterol LDL acima do recomendado — e a maioria não sabe o que isso significa na prática.
Colesterol: o que é e porque existe
O colesterol é uma molécula de gordura essencial à vida: faz parte das membranas de todas as células, é o precursor das hormonas sexuais (estrogénio, testosterona), da vitamina D e dos ácidos biliares necessários à digestão. O problema não é o colesterol em si — é o excesso e o desequilíbrio entre os diferentes tipos.
O colesterol não se dissolve no sangue. Para circular, é transportado em partículas chamadas lipoproteínas. As mais relevantes clinicamente são:
- LDL (Low-Density Lipoprotein) — o “colesterol mau”: transporta colesterol do fígado para as células. Em excesso, deposita-se nas paredes das artérias e forma placas ateroscleróticas.
- HDL (High-Density Lipoprotein) — o “colesterol bom”: recolhe o excesso de colesterol dos tecidos e leva-o de volta ao fígado para ser eliminado.
- Triglicéridos — não são colesterol, mas são medidos no mesmo painel lipídico e têm impacto cardiovascular próprio.
- Colesterol total — soma de todos os tipos; útil como indicador inicial mas menos informativo que o LDL e HDL isolados.
Os valores de referência — o que o seu médico olha nas análises
Os valores de referência variam consoante o risco cardiovascular global, mas as guidelines europeias de 2021 (ESC/EAS) estabelecem como objectivos gerais para adultos sem doença cardiovascular conhecida:
- Colesterol total: idealmente abaixo de 190 mg/dL
- LDL: abaixo de 115 mg/dL (risco baixo a moderado); abaixo de 100 mg/dL (risco alto); abaixo de 55-70 mg/dL (risco muito alto ou doença já estabelecida)
- HDL: acima de 40 mg/dL nos homens e 45-50 mg/dL nas mulheres — quanto mais alto, melhor
- Triglicéridos: abaixo de 150 mg/dL
O valor “normal” de LDL para uma mulher de 35 anos sem factores de risco é diferente do “normal” para um homem de 60 anos com diabetes e hipertensão. O médico avalia o risco cardiovascular total, não apenas o número isolado.
Colesterol LDL nas mulheres: porque a diferença importa
As mulheres têm, em média, HDL mais elevado do que os homens antes da menopausa — um efeito protector do estrogénio. Após a menopausa, este efeito desaparece e o risco cardiovascular aproxima-se dos valores masculinos. Por isso:
- Antes da menopausa: LDL abaixo de 130 mg/dL é geralmente aceitável em mulheres de baixo risco
- Após a menopausa: os objectivos tornam-se mais exigentes, alinhados com as guidelines gerais
- Em mulheres com história familiar de doença cardíaca precoce, os objectivos são mais baixos independentemente da idade
Segundo o Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico (INSEF), as mulheres portuguesas na pós-menopausa são um dos grupos com maior prevalência de hipercolesterolemia não tratada ou insuficientemente controlada.
Sintomas de colesterol elevado — ou a ausência deles
O colesterol alto não dói, não cansa e não tem sintomas perceptíveis. É exactamente por isso que é chamado de “assassino silencioso” — as placas ateroscleróticas desenvolvem-se durante anos nas artérias sem qualquer aviso, até causarem um enfarte ou AVC. A única forma de saber é através de análises ao sangue.
Em casos raros de hipercolesterolemia familiar (condição genética hereditária, que afecta 1 em cada 250 portugueses), podem surgir sinais visíveis:
- Xantomas: depósitos amarelados sob a pele, geralmente nos tendões ou cotovelos
- Xantelasmas: manchas amareladas nas pálpebras
- Arco córneo: anel esbranquiçado em volta da córnea, especialmente em pessoas jovens
O que aumenta o colesterol LDL
A alimentação explica apenas parte da variação — a genética determina 50-80% dos níveis basais de colesterol. Os factores modificáveis mais relevantes são:
Alimentação
- Gorduras saturadas (carne gorda, manteiga, queijo curado, produtos de pastelaria, óleos de palma e coco) — o principal alvo alimentar segundo as guidelines europeias
- Gorduras trans (margarinas industriais, produtos de fast food) — ainda mais prejudiciais que as saturadas; a maioria foi proibida na União Europeia
- Colesterol dietético — o impacto é menor do que se pensava; ovos em quantidade moderada não aumentam o risco cardiovascular na maioria das pessoas
Outros factores
- Sedentarismo (reduz o HDL)
- Tabagismo (reduz o HDL e oxida o LDL, tornando-o mais aterogénico)
- Excesso de peso, especialmente abdominal
- Diabetes não controlada
- Hipotiroidismo (o colesterol é frequentemente elevado quando a tiroide está hipoactiva)
- Alguns medicamentos: corticóides, ciclosporina, certos antirretrovirais
Alimentos que ajudam a baixar o colesterol
A evidência mais sólida é para:
- Esteróis e estanóis vegetais (em margarinas enriquecidas e iogurtes específicos): reduzem o LDL em 10-15% se tomados regularmente, por inibirem a absorção intestinal de colesterol
- Beta-glucanos (aveia, cevada): 3g/dia reduzem o LDL em 5-10%
- Fibra solúvel (leguminosas, maçã, citrinos, psílio): forma um gel que sequestra colesterol no intestino antes de ser absorvido
- Frutos de casca rija (nozes, amêndoas, cajus): em 30-40g/dia, reduzem o LDL em 3-7%
- Azeite extra-virgem: melhora o perfil lipídico e reduz a oxidação do LDL — a dieta mediterrânica com azeite está associada a redução de 30% no risco de eventos cardiovasculares (estudo PREDIMED)
- Peixes gordos (salmão, sardinha, cavala, atum): os ómega-3 reduzem os triglicéridos em 20-30%
O que comer para baixar o colesterol: guia prático
Aumentar: peixe gordo 2-3x/semana, leguminosas (feijão, grão, lentilhas) 4-5x/semana, aveia ao pequeno-almoço, nozes (30g/dia), azeite como gordura principal, frutas e vegetais variados, pão e massas integrais.
Reduzir: carne vermelha gorda para 1-2x/semana, laticínios gordos (substituir por versões magras), bolos, bolachas e pastelaria industrial, charcutaria e enchidos, frituras.
Quando é necessário tomar medicação
As estatinas (atorvastatina, rosuvastatina, sinvastatina) são os medicamentos mais prescritos para o colesterol. A decisão de medicar não depende apenas do valor de LDL, mas do risco cardiovascular global calculado com base em: idade, sexo, tensão arterial, tabagismo, diabetes, história familiar e LDL.
As estatinas reduzem o risco de enfarte em 25-35% em pessoas de alto risco. Os efeitos secundários musculares (mialgias) ocorrem em 5-10% dos doentes e são geralmente reversíveis com mudança de estatina ou redução de dose. A decisão de parar a medicação nunca deve ser tomada sem consultar o médico.
Rastreio: quando fazer análises
A DGS recomenda rastreio lipídico:
- Homens a partir dos 35 anos
- Mulheres a partir dos 45 anos (ou mais cedo se houver factores de risco)
- Crianças com história familiar de hipercolesterolemia familiar, a partir dos 2 anos
O rastreio é pedido pelo médico de família no âmbito dos exames de saúde periódicos do SNS, sem custo para o utente.
Fontes: Sociedade Europeia de Cardiologia / European Atherosclerosis Society — Guidelines for the management of dyslipidaemias (2021); DGS — Norma de Orientação Clínica sobre Dislipidémias; INSA — Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico (INSEF); Estudo PREDIMED — New England Journal of Medicine; American Heart Association Dietary Guidelines (2021); Cochrane Reviews — Statins for the primary prevention of cardiovascular disease.
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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