Vitamina D: Porque a Maioria dos Portugueses Está com Défice — e Como Suplementar Correctamente


0

Portugal tem mais de 300 dias de sol por ano. E no entanto, segundo o Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física (IAN-AF), cerca de 70% dos adultos portugueses têm níveis insuficientes de vitamina D. É um dos paradoxos mais documentados da saúde portuguesa: muito sol, pouco aproveitamento. O problema não é o sol — é a forma como vivemos e o que sabemos (ou julgamos saber) sobre esta vitamina.

O que é realmente a vitamina D

A vitamina D não é bem uma vitamina. É uma pró-hormona — o organismo produz-a a partir de um precursor existente na pele quando exposta à radiação UVB, e converte-a posteriormente no fígado e nos rins na sua forma activa (calcitriol). Age em praticamente todos os tecidos do corpo através de receptores específicos (VDR) identificados em mais de 200 genes.

📬 Saúde preventiva na sua caixa de correio
📋 Checklist gratuita — 47 pontos de controlo · Um artigo por semana, cancele quando quiser.

LIKE WHAT YOU'RE READING?
subscribe to our top stories

Ao subscrever, aceita os nossos Termos e Aviso Legal. Pode cancelar a qualquer momento.

Don't worry, we don't spam

As funções mais documentadas pela investigação actual são:

  • Saúde óssea: Aumenta a absorção intestinal de cálcio em 30-40%. Défice crónico leva a osteomalácia em adultos e, nos idosos, multiplica o risco de fracturas.
  • Sistema imunitário: Regula tanto a imunidade inata como a adaptativa; associada a menor risco de infecções respiratórias e menor incidência de doenças autoimunes como esclerose múltipla e diabetes tipo 1.
  • Função muscular: Défice está associado a sarcopenia (perda de massa muscular) e a maior risco de quedas — uma das principais causas de hospitalização em maiores de 65 anos.
  • Saúde cardiovascular e metabólica: Receptores de vitamina D existem no coração e nos vasos; défice associado a maior prevalência de hipertensão e síndrome metabólica.
  • Regulação do humor: Receptores VDR existem no cérebro; múltiplos estudos associam défice a maior risco de depressão sazonal e alterações de humor.
Suplementos de vitamina D em blisteres

Os valores de referência — o que as análises ao sangue mostram

O parâmetro medido em análises é a 25-hidroxivitamina D [25(OH)D]. Os valores de referência foram actualizados e clarificados pelas principais entidades internacionais:

  • Deficiência grave: abaixo de 10 ng/mL (25 nmol/L) — associada a raquitismo em crianças e osteomalácia em adultos
  • Deficiência: abaixo de 20 ng/mL (50 nmol/L) — o limiar mínimo para saúde óssea básica
  • Insuficiência: 20-29 ng/mL — função óssea preservada mas compromisso das funções extra-esqueléticas
  • Suficiência: 30-50 ng/mL (75-125 nmol/L) — alvo para a maioria dos adultos
  • Zona óptima: 40-60 ng/mL — recomendada pela Endocrine Society (Guidelines 2024) para populações de risco elevado

Acima de 100 ng/mL (250 nmol/L) entra-se em zona de potencial toxicidade. A hipervitaminose D é rara mas possível com suplementação excessiva crónica — o sol nunca causa toxicidade porque o organismo regula automaticamente a produção cutânea.

O paradoxo português: porque estamos com défice apesar do sol

A produção de vitamina D na pele requer radiação UVB (290-315 nm). Vários factores limitam esta síntese em Portugal, mesmo nos meses de Verão:

  • Protecção solar: SPF 15 reduz a síntese de vitamina D em 93%. É necessária para prevenir cancro da pele — mas compromete a produção de vitamina D. Este é um dilema real, sem solução perfeita.
  • Hora do dia: A síntese de vitamina D só ocorre de forma eficaz quando o índice UV é ≥ 3, em Portugal aproximadamente entre as 10h e as 15h. A maioria das pessoas está em espaços fechados neste período.
  • Superfície de pele exposta: São necessários pelo menos braços e pernas expostos durante 10-20 minutos, sem protecção solar. Rosto e mãos não são suficientes para cobrir as necessidades diárias.
  • Envelhecimento: A capacidade de síntese cutânea reduz-se progressivamente com a idade — aos 70 anos pode ser 75% inferior à de um adulto jovem.
  • Inverno: Abaixo do paralelo 35°N (Lisboa está a 38°N), a síntese cutânea é praticamente nula de Novembro a Março, porque o ângulo solar não permite a passagem de radiação UVB suficiente.

D2 ou D3? A diferença que a maioria não conhece

Existem duas formas de vitamina D nos suplementos:

  • Vitamina D2 (ergocalciferol) — de origem vegetal ou fúngica; frequentemente usada em multivitamínicos mais económicos
  • Vitamina D3 (colecalciferol) — de origem animal (lanolina ou, em versões vegan, líquenes); é a forma que o organismo produz naturalmente na pele

Uma meta-análise publicada no American Journal of Clinical Nutrition demonstrou que a D3 é 87% mais eficaz a elevar os níveis séricos de 25(OH)D do que a D2. As Guidelines da Endocrine Society (2024) recomendam especificamente D3 para suplementação. Ao comprar suplementos, procure “colecalciferol” no rótulo — não “ergocalciferol”.

A vitamina K2: o complemento que transforma a eficácia

Este é o dado que a maioria das pessoas desconhece: vitamina D e vitamina K2 trabalham em conjunto. A vitamina D aumenta a absorção intestinal de cálcio — mas o cálcio absorvido precisa de ir para os ossos, não para as artérias.

A vitamina K2 (especificamente a forma MK-7, menaquinona-7) activa proteínas — osteocalcina e MGP — que dirigem o cálcio para os ossos e impedem a sua deposição nas paredes vasculares. Sem K2, quem suplementa com doses elevadas de D3 pode estar, sem saber, a aumentar o risco de calcificação arterial.

Investigação publicada no Journal of Nutritional Science e em estudos populacionais europeus associa défice de K2 a maior calcificação coronária independentemente dos níveis de vitamina D. Quem suplementa com D3 acima de 2000 UI/dia deve considerar a co-suplementação com K2 (90-120 mcg/dia de MK-7). Fontes alimentares de K2: queijos fermentados (natto japonês tem os níveis mais elevados; queijo gouda e brie têm quantidades moderadas).

Doses: quanto tomar na prática

A DGS recomenda 400-800 UI/dia como referência geral. As guidelines internacionais convergem em valores superiores para a maioria dos adultos em Portugal:

  • Manutenção (adulto saudável, valores adequados): 1000-2000 UI de D3/dia
  • Idosos acima dos 65 anos: 2000 UI/dia — a capacidade de síntese cutânea está muito reduzida
  • Obesos (IMC > 30): A vitamina D sequestra-se no tecido adiposo; podem ser necessárias 2-3x a dose habitual
  • Correcção de défice documentado (abaixo de 20 ng/mL): 4000-6000 UI/dia durante 8-12 semanas, sob supervisão médica, seguido de dose de manutenção
  • Limite superior seguro (EFSA 2023): 4000 UI/dia para adultos sem supervisão médica

Sendo lipossolúvel, a vitamina D absorve-se melhor quando tomada com uma refeição que contenha gordura. Tomar em jejum pode reduzir a absorção em até 50%.

Fontes alimentares: o contributo é limitado

A alimentação raramente cobre mais de 20% das necessidades de vitamina D. As melhores fontes são:

  • Peixes gordos: Salmão selvagem (600-1000 UI por 100g), sardinha em lata (270 UI), cavala (400 UI), atum (150-230 UI)
  • Gema de ovo: 20-40 UI por gema — contribuição modesta mas real
  • Cogumelos expostos à luz UV: Podem conter quantidades relevantes de D2
  • Alimentos enriquecidos: Em Portugal, ao contrário dos EUA, o leite e os cereais raramente são enriquecidos com D3 em quantidade significativa

Quem deve pedir análises

A DGS recomenda medição do 25(OH)D em grupos de risco, com pedido do médico de família:

  • Idosos com risco de quedas ou osteoporose
  • Pouca exposição solar (trabalho nocturno, mobilidade reduzida, institucionalização)
  • Pele muito pigmentada
  • Obesidade (IMC > 30)
  • Doenças crónicas: doença inflamatória intestinal, síndrome de malabsorção, doença renal crónica
  • Uso prolongado de antiepilépticos, corticóides ou medicamentos para o HIV
  • Mulheres grávidas e a amamentar

O exame — doseamento de 25-hidroxivitamina D sérica — está disponível no SNS por prescrição do médico de família, sem custo para o utente nos grupos de risco identificados.


Fontes: Endocrine Society — Vitamin D for Prevention of Disease: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline (2024); EFSA — Scientific Opinion on the Tolerable Upper Intake Level for Vitamin D (2023); IAN-AF — Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física, Portugal (INSA); DGS — Vitamina D e Saúde; Tripkovic L et al. “Comparison of vitamin D2 and vitamin D3 supplementation in raising serum 25-hydroxyvitamin D status” — American Journal of Clinical Nutrition (2012); Holick MF — “The Vitamin D Deficiency Pandemic” — Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders (2017).

Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.


Like it? Share with your friends!

0
HEALTHPREV

0 Comments

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

|