O cancro em adultos com menos de 55 anos tem aumentado, e ninguém sabe ainda explicar bem porquê. Um estudo publicado a 22 de junho de 2026 na Nature Medicine, conduzido por uma equipa da WashU Medicine, propõe uma peça do puzzle: as gerações mais recentes parecem estar a envelhecer biologicamente mais depressa do que as anteriores, e esse envelhecimento acelerado associa-se a mais cancros de início precoce. O estudo voltou a circular em meados de setembro em várias notícias, algumas com títulos que exageram o que ele mostra. Vale a pena lê-lo com rigor.
Este artigo explica o que foi medido, o que foi encontrado e, sobretudo, o que continua por provar, e termina com o que pode fazer agora. Complementa o artigo pilar Longevidade Saudável: O Guia Baseado em Evidência e liga-se a Idade Biológica, a Rastreios Oncológicos e a Cancro em Jovens Portuguesas.
O que o estudo fez
A equipa, com primeira autoria de R. Tian, analisou dados de dois grandes bancos de dados: o UK Biobank, com mais de 154.000 adultos na coorte mais jovem estudada, e o programa All of Us dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, com mais de 10.000 participantes. Definiu-se cancro de início precoce como o diagnosticado antes dos 55 anos.
Para medir o envelhecimento biológico, usaram-se várias abordagens em simultâneo:
- Envelhecimento sistémico: algoritmos como o PhenoAge (que combina nove biomarcadores sanguíneos, entre os quais a albumina e a creatinina, vários deles presentes em análises de rotina), o método de Klemera-Doubal e uma pontuação de idade metabolómica.
- Envelhecimento de órgãos e sistemas: estimado a partir de dados de proteómica do sangue, em particular do sistema imunitário e do tecido adiposo.
Se quiser perceber a diferença entre idade cronológica e biológica e os vários relógios que existem, veja o artigo Idade Biológica.
O que encontrou
- As gerações mais recentes têm um envelhecimento biológico mais avançado. No Reino Unido, quem nasceu entre 1965 e 1974 tinha uma pontuação de envelhecimento sistémico cerca de 0,23 desvios-padrão superior à de quem nasceu entre 1950 e 1954. Nos EUA, quem nasceu entre 1990 e 1999 tinha uma pontuação cerca de 0,92 desvios-padrão superior à de quem nasceu entre 1965 e 1969.
- Mais envelhecimento associou-se a mais cancro precoce. Um envelhecimento sistémico mais avançado associou-se a um risco 8% superior de cancros sólidos de início precoce, e a um risco 15% superior no grupo com o envelhecimento mais avançado, comparado com o menos avançado.
- Alguns cancros destacam-se. Os padrões mais claros surgiram no pulmão, no aparelho digestivo e no útero. O envelhecimento do sistema imunitário associou-se ao cancro do pulmão de início precoce, e o do tecido adiposo ao cancro colorretal de início precoce.
- A associação manteve-se depois de controlar o risco genético herdado, segundo os autores.
Uma nota sobre os números. Alguns títulos falaram em “92% mais envelhecimento”. Essa medida está expressa em desvios-padrão da escala do próprio algoritmo, e não em percentagem de idade. Não significa que uma pessoa nascida nos anos 90 seja “92% mais velha” do que uma nascida nos anos 60, mas sim que, na escala usada, a distribuição desloca-se para valores mais altos.
O que o estudo não prova
É um estudo observacional. Os próprios autores escrevem que não podem determinar se o envelhecimento biológico acelerado causa diretamente o cancro de início precoce. Na leitura mais prudente, o envelhecimento acelerado é um marcador, que pode refletir fatores de risco por detrás dos dois fenómenos, e não uma causa demonstrada.
Há limitações que os autores assinalam: a amostra dos EUA é pequena, o seguimento é limitado, o envelhecimento biológico foi estimado num único momento e os dados vêm de populações do Reino Unido e dos EUA, que podem não refletir a realidade portuguesa. Acresce que o cancro antes dos 55 anos continua a ser, em termos absolutos, pouco frequente, pelo que um aumento relativo de 8% traduz-se numa diferença absoluta pequena para cada pessoa.
O estudo também não identifica que fatores estão a acelerar o envelhecimento das gerações mais novas. Os autores referem apenas que os fatores ambientais, de estilo de vida e sociais precisam de ser estudados.
Não é um teste para fazer
Seria tentador concluir que devia medir a sua idade biológica para estimar o risco de cancro. Não há fundamento para isso. Os algoritmos deste estudo foram usados para comparar populações, e não para prever o cancro de uma pessoa concreta. Nenhuma diretriz recomenda usá-los para decidir rastreios. O raciocínio é o mesmo que aplicámos aos testes comerciais de deteção precoce de múltiplos cancros, descritos em Testes de Deteção Precoce de Múltiplos Cancros: uma tecnologia interessante para investigação não é, por si só, uma ferramenta de decisão individual.
O que pode fazer agora
1. Cumpra os rastreios e conheça a sua história familiar. Em Portugal, o rastreio do cancro colorretal recomenda a pesquisa de sangue oculto nas fezes (FIT) a cada dois anos entre os 50 e os 74 anos, como explicado em Rastreios Oncológicos. Nos Estados Unidos, o início recomendado desceu para os 45 anos em 2021. Se um familiar de primeiro grau teve cancro colorretal, fale com o médico sobre começar mais cedo. O artigo Cancro em Jovens Portuguesas refere, com base em dados da OCDE, que a cobertura do rastreio colorretal em Portugal era de apenas 14,95% em 2022, muito abaixo da meta europeia de 65%. Aderir quando é convocado faz diferença.
2. Não ignore sintomas por ter poucos anos. Sangue nas fezes, alteração persistente do trânsito intestinal, dor abdominal persistente, perda de peso sem explicação e anemia por falta de ferro sem causa aparente justificam consulta. Uma ferritina baixa nas análises, em particular, pede que se procure a causa. Na maior parte dos casos não é cancro, mas nos adultos jovens o risco é ficar a atribuir os sinais a causas benignas e adiar o diagnóstico.
3. Trabalhe os fatores de risco que já se conhecem. O estudo não diz o que acelera o envelhecimento, mas os fatores de risco estabelecidos para vários cancros continuam a ser a melhor aposta: manter um peso saudável e reduzir a gordura visceral, ser fisicamente ativo (ver 150 Minutos Por Semana), não fumar e limitar o álcool.
4. Faça as análises de rotina. As análises que o médico de família pede, descritas em Análises de Rotina após os 40, incluem marcadores que estão na base destes algoritmos, e são muito mais úteis interpretadas na consulta do que convertidas num número de “idade”.
Perguntas frequentes sobre envelhecimento biológico e cancro precoce
O que é a idade biológica e como se mede?
A idade biológica é uma estimativa do estado funcional do organismo, por oposição à idade cronológica, que é apenas o tempo desde o nascimento. Mede-se com algoritmos que combinam marcadores, como análises de sangue de rotina (o PhenoAge usa nove biomarcadores, entre os quais a albumina e a creatinina), perfis metabólicos, proteínas do sangue ou padrões de metilação do ADN. Não existe um único teste padrão, e os resultados variam consoante o algoritmo usado.
O estudo prova que envelhecer mais depressa causa cancro?
Não. É um estudo observacional, e os próprios autores afirmam que não pode determinar se o envelhecimento biológico acelerado causa diretamente o cancro precoce. O envelhecimento acelerado pode ser um marcador de outros fatores, como o excesso de peso, a inflamação crónica ou a exposição a fatores ambientais, que por sua vez aumentam o risco. Também o efeito medido é modesto: 8% de risco relativo superior, e 15% entre o grupo com envelhecimento mais avançado e o menos avançado.
Devo fazer um teste de idade biológica para avaliar o meu risco de cancro?
Não há fundamento para isso. Os algoritmos usados no estudo foram avaliados em grandes populações, não para prever o cancro de uma pessoa concreta, e nenhuma diretriz recomenda estes testes para decisões de rastreio. Mais útil do que um número de idade biológica é cumprir os rastreios recomendados, conhecer a história familiar e prestar atenção aos sintomas. O mesmo cuidado se aplica aos testes comerciais de deteção precoce de múltiplos cancros, que ainda não têm validação regulatória.
A partir de que idade devo fazer o rastreio do cancro colorretal?
Em Portugal, o programa de rastreio recomenda a pesquisa de sangue oculto nas fezes (FIT) a cada dois anos entre os 50 e os 74 anos. Nos Estados Unidos, o início recomendado desceu para os 45 anos em 2021, em resposta ao aumento do cancro colorretal em adultos mais jovens. Se tem história familiar de cancro colorretal ou de pólipos, ou doença inflamatória intestinal, o médico pode recomendar começar mais cedo. Fale com o seu médico de família.
Que sintomas não devo ignorar mesmo tendo menos de 50 anos?
Sangue nas fezes, alteração persistente do trânsito intestinal, dor abdominal persistente, perda de peso sem explicação, cansaço prolongado e anemia por falta de ferro sem causa aparente justificam consulta independentemente da idade. Na maior parte dos casos a causa não é cancro, mas um diagnóstico mais tardio é um problema particular nos adultos jovens, em que estes sinais tendem a ser atribuídos a causas benignas.
Fontes: Tian R, et al., estudo sobre envelhecimento biológico acelerado e cancro de início precoce, Nature Medicine (22 de junho de 2026); WashU Medicine, Faster aging in younger generations linked to rise in early-onset cancer (junho de 2026); News-Medical, Faster biological aging may explain rising early-onset cancers (24 de junho de 2026); Levine ME, et al., An epigenetic biomarker of aging for lifespan and healthspan, Aging (2018), sobre o PhenoAge; US Preventive Services Task Force, recomendação de rastreio do cancro colorretal a partir dos 45 anos (2021); OCDE, EU Country Cancer Profile: Portugal 2025.
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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