A 29 de agosto de 2026, no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), foram apresentados os resultados do ensaio STAREE, publicados em simultâneo no New England Journal of Medicine. É um ensaio aleatorizado, controlado por placebo, desenhado de propósito para responder a uma pergunta que os médicos de família enfrentam todos os dias e para a qual havia pouca evidência direta: uma pessoa com mais de 70 anos, sem doença cardiovascular conhecida, deve começar a tomar uma estatina? A resposta resumida é que a estatina reduziu 30% os eventos cardiovasculares, mas não melhorou a sobrevida sem incapacidade.
Este artigo explica o que o ensaio mediu, o que encontrou e, sobretudo, o que não permite concluir. Se tem pais ou familiares nesta faixa etária, ou se você próprio se aproxima dela, é um resultado que vale a pena conhecer com rigor. Complementa o artigo pilar Saúde Cardiovascular após os 40: Guia Completo de Prevenção e liga-se a Novas Metas de Colesterol LDL: o Que Mudou na Diretriz de 2026 e a Colesterol: Os Valores que o Seu Médico Olha Nas Análises.
O que foi o STAREE e quem participou
O nome vem de STAtin therapy for Reducing Events in the Elderly. O ensaio foi liderado pela investigadora Sophia Zoungas, da Monash University, em Melbourne, e recrutou os participantes em consultórios de medicina geral e familiar da Austrália, o que o aproxima da realidade de um centro de saúde. Foram incluídas 9.971 pessoas com idade média de 74,7 anos, das quais 52% eram mulheres. Todas tinham 70 anos ou mais e nenhuma tinha doença cardiovascular clínica, diabetes ou demência. Metade recebeu atorvastatina 40 mg por dia e metade recebeu placebo, com um seguimento mediano de 5,9 anos.
O ensaio tinha dois objetivos principais, e é a diferença entre eles que explica quase tudo o que se discute a seguir:
- Eventos cardiovasculares major: morte de causa cardiovascular, enfarte do miocárdio não fatal, AVC ou necessidade de revascularização coronária.
- Sobrevida sem incapacidade: um indicador composto que conta como falha a morte, o diagnóstico de demência ou uma incapacidade física persistente. Pretende medir se as pessoas vivem mais tempo e com autonomia, e não apenas se evitam um evento cardíaco.
O que o ensaio mostrou
- Eventos cardiovasculares: 6,0% no grupo da atorvastatina contra 8,3% no grupo do placebo (297 contra 412 pessoas), o que corresponde a um hazard ratio de 0,70 (intervalo de confiança a 95%: 0,61 a 0,82), ou seja, uma redução relativa de 30%. A maior parte da diferença veio de eventos não fatais: enfartes, AVC e revascularizações.
- Diferença absoluta: cerca de 2,3 pontos percentuais em quase seis anos. Em termos práticos, e num cálculo aproximado nosso, seria preciso tratar cerca de 43 pessoas durante seis anos para evitar um evento cardiovascular major.
- Sobrevida sem incapacidade: sem diferença significativa (hazard ratio de 0,94; intervalo de confiança a 95%: 0,84 a 1,05; p = 0,25).
- Mortalidade total: sem efeito significativo.
- Demência: hazard ratio de 1,03, com um intervalo de confiança largo.
- Segurança: os acontecimentos adversos graves foram iguais nos dois grupos (2,7%), mas os acontecimentos musculoesqueléticos, hepatobiliares e relacionados com diabetes foram mais frequentes com a atorvastatina.
Porque é que menos enfartes não se traduziram em mais anos sem incapacidade
À primeira vista parece contraditório: se há 30% menos eventos cardiovasculares, porque não melhorou a sobrevida sem incapacidade? Os autores e os comentadores apontam várias razões que se somam.
A primeira é que, entre os 70 e os 80 anos, morre-se de muitas coisas além de enfartes e AVC. Segundo os autores, 80% das mortes ocorridas no ensaio foram por causas não cardiovasculares. Como o indicador composto conta a morte, a demência e a incapacidade persistente, o benefício cardiovascular fica diluído no meio de acontecimentos que a estatina não pretende evitar.
A segunda é o tempo. Seis anos é pouco para um tratamento preventivo cujo benefício se acumula lentamente, sobretudo numa população em que o risco competitivo de outras doenças é elevado.
A terceira é a adesão. Segundo uma análise crítica publicada no Sensible Med, cerca de 20% dos participantes tinham deixado o tratamento ao fim de um ano e cerca de 50% aos seis anos. Num ensaio analisado por intenção de tratar, quem para de tomar continua a contar no seu grupo, o que tende a diluir o efeito medido. A mesma análise lembra que houve um período de placebo antes da aleatorização (14 dias), o que seleciona pessoas mais dispostas a cumprir o tratamento e limita a extrapolação para todos os idosos.
Evitar um enfarte vale a pena mesmo sem viver mais tempo?
É aqui que as opiniões divergem, e a evidência não decide sozinha. Sophia Zoungas defendeu que saber que existe uma medida eficaz para baixar o risco de enfarte e AVC será uma “grande tranquilidade” para muitos idosos, dado o receio que estes acontecimentos provocam. Do outro lado, os críticos observam que um tratamento crónico, com efeitos secundários e custos, deve justificar-se por ganhos que os doentes sentem, e que o ensaio não demonstrou ganho em autonomia nem em sobrevivência. Ambas as leituras são legítimas. O papel do artigo não é escolher uma delas, mas explicar que a decisão depende do que cada pessoa valoriza.
Há ainda um ponto prático. A incapacidade na idade avançada depende muito mais de massa muscular, equilíbrio e cognição do que do colesterol. Se o seu objetivo é manter a autonomia, o STAREE reforça que a estatina não substitui o trabalho sobre a sarcopenia nem a prevenção de quedas.
O que este ensaio não responde
- Pessoas com diabetes. Foram excluídas. Para esse grupo, ver Estatinas Logo a Seguir ao Diagnóstico de Diabetes Tipo 2.
- Pessoas que já tiveram um enfarte ou um AVC. É prevenção secundária, com evidência muito mais robusta a favor da estatina, e o STAREE não altera essa recomendação.
- Os mais velhos. Com uma idade média de 74,7 anos, a evidência é mais sólida para quem tem entre 70 e 80 anos do que para os muito idosos ou frágeis. Convém ter cautela ao extrapolar.
- Outras estatinas e outras doses. O ensaio testou apenas atorvastatina 40 mg.
- A demência. O intervalo de confiança largo impede concluir que a estatina proteja ou prejudique o cérebro.
O que fazer com isto na prática
Se tem mais de 70 anos, nunca teve um evento cardiovascular e nunca falou de estatinas com o médico: o STAREE é um bom motivo para trazer o tema à consulta. O médico deve ponderar o risco cardiovascular calculado, os valores de LDL e o estado geral de saúde. Se quiser perceber melhor os números, veja ApoB e Lp(a) e a pontuação de cálcio coronário, dois instrumentos que ajudam a refinar o risco individual.
Se já toma estatina: não pare por causa das manchetes sobre “sem benefício na sobrevivência”. O ensaio não estudou quem já tem doença cardiovascular e não é um argumento para suspender um tratamento em curso.
Se é filho ou cuidador: leve a lista completa de medicamentos à consulta. A decisão sobre uma estatina deve ser vista no conjunto, tendo em conta o número de fármacos, a fragilidade, a expectativa de vida e o que a pessoa mais valoriza.
Perguntas frequentes sobre estatinas depois dos 70 anos
Devo começar a tomar uma estatina só porque tenho mais de 70 anos?
Não. A idade, por si só, não é uma indicação. O STAREE mostra que, em pessoas com mais de 70 anos sem doença cardiovascular, diabetes ou demência, a atorvastatina reduziu os enfartes, os AVC e as revascularizações, mas a decisão continua a ser individual: depende do risco cardiovascular calculado, do colesterol LDL, dos restantes medicamentos, da fragilidade e das preferências de cada pessoa. É uma conversa a ter com o médico assistente, não uma regra automática.
Se o ensaio não mostrou que se vive mais tempo, para que serve a estatina nesta idade?
Serve para evitar acontecimentos cardiovasculares. No STAREE, 6,0% dos participantes tratados tiveram um evento cardiovascular major, contra 8,3% com placebo, ao longo de cerca de seis anos. Contudo, esta redução não se traduziu em melhor sobrevida sem incapacidade nem em menor mortalidade total, em grande parte porque 80% das mortes do ensaio foram de causa não cardiovascular. Cada pessoa pode valorizar de forma diferente evitar um enfarte ou um AVC, mesmo sem ganho em anos de vida.
Já tomo estatina há anos e tenho mais de 70. Devo parar?
Não pare por iniciativa própria. O STAREE estudou apenas pessoas sem doença cardiovascular conhecida, ou seja, prevenção primária. Quem já teve um enfarte, um AVC ou outro evento cardiovascular está em prevenção secundária, um cenário com evidência muito mais robusta a favor da estatina, que este ensaio não põe em causa. Se tem dúvidas ou efeitos secundários, discuta com o seu médico antes de qualquer alteração.
As estatinas aumentam o risco de demência nos idosos?
O STAREE não encontrou aumento: o hazard ratio para a demência foi de 1,03, mas com um intervalo de confiança largo, o que significa que o ensaio não tem poder para excluir nem um pequeno aumento nem uma pequena redução. Na prática, não há sinal de dano, mas também não há prova de benefício cognitivo. Um estudo observacional recente em pessoas com diabetes tipo 2 sugeriu o contrário, mas nenhum dos dois resolve a questão.
E se a estatina me provocar dores musculares?
As queixas musculoesqueléticas foram mais frequentes com atorvastatina do que com placebo no STAREE, e são uma das razões mais comuns para as pessoas abandonarem o tratamento. Existem alternativas, como ajustar a dose, mudar para outra estatina ou rever outros fatores que contribuem para as dores. Fale com o médico antes de suspender: parar sem acompanhamento retira a proteção cardiovascular sem que a causa das dores seja investigada.
Fontes: Zoungas S, et al., STAREE investigators, Atorvastatin, Cardiovascular Events, and Disability-free Survival in Older Adults, New England Journal of Medicine (2026), apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) 2026, Hot Line, 29 de agosto de 2026; Sociedade Europeia de Cardiologia, comunicado de imprensa sobre o ensaio STAREE (agosto de 2026); American College of Cardiology, resumo do STAREE (ESC 2026); Medscape, STAREE Trial: Atorvastatin Cuts Major CV Events by 30% in Older Adults, Driven Mainly by Nonfatal Events (2026); Sensible Med, Statins in the elderly: the STAREE trial (NEJM 2026), análise crítica.
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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