O ácido úrico raramente é o primeiro valor que se procura numa análise de rotina, mas quando surge elevado levanta sempre a mesma pergunta: é gota, é um problema nos rins, ou é apenas um número sem grande importância? A resposta, segundo a evidência mais recente, é “depende” — e essa nuance é precisamente o que separa uma decisão clínica acertada de um tratamento desnecessário.
Um consenso de especialistas europeus, atualizado em 2025, trouxe uma clarificação importante: nem todo o ácido úrico alto precisa de medicação. A abordagem correta passa por perceber o que está a causar a subida, qual o risco cardiovascular e renal associado, e só depois decidir se há necessidade de intervir.
O que é o ácido úrico
O ácido úrico é o produto final da degradação das purinas — moléculas presentes nas células do próprio corpo e em certos alimentos. É normal ter ácido úrico no sangue; o problema surge quando a produção excede a capacidade dos rins de o eliminar pela urina, ou quando a excreção renal está reduzida. Nesse desequilíbrio, o ácido úrico acumula-se e pode formar cristais que se depositam nas articulações — a base da gota — ou nos rins, formando cálculos.
Valores de referência
- Homens: hiperuricemia acima de 7,0 mg/dL
- Mulheres: hiperuricemia acima de 6,0 mg/dL (o valor de referência é mais baixo porque os estrogénios favorecem a excreção renal de ácido úrico — por isso o risco de hiperuricemia sobe visivelmente após a menopausa)
- Objetivo terapêutico em quem já tem gota: abaixo de 6,0 mg/dL, segundo as diretrizes do American College of Rheumatology (ACR) e da European League Against Rheumatism (EULAR)
- Objetivo em gota grave ou tofos: abaixo de 5,0 mg/dL
O que causa o ácido úrico alto
A hiperuricemia raramente tem uma única causa. Costuma resultar da combinação de vários fatores:
- Alimentação rica em purinas: vísceras, marisco e carnes vermelhas em excesso são as fontes mais diretas
- Álcool, sobretudo cerveja: reduz a capacidade dos rins de eliminar ácido úrico, além de a cerveja conter purinas próprias
- Açúcar e frutose: bebidas açucaradas e alimentos ricos em frutose aumentam a produção hepática de ácido úrico como subproduto do seu próprio metabolismo
- Excesso de peso e obesidade abdominal: associada a maior produção e menor excreção de ácido úrico, no mesmo padrão metabólico discutido no artigo sobre gordura visceral
- Resistência à insulina e síndrome metabólica: ver resistência à insulina, com a qual a hiperuricemia costuma coexistir
- Doença renal crónica: reduz diretamente a capacidade de excreção, criando um ciclo que agrava a hiperuricemia
- Medicamentos: diuréticos tiazídicos e de ansa, aspirina em baixa dose e alguns imunossupressores podem elevar os valores
- Genética: hipertensão familiar de ácido úrico ou defeitos enzimáticos raros, que exigem avaliação especializada
Gota: quando os cristais se depositam nas articulações
Quando o ácido úrico se mantém cronicamente elevado, podem formar-se cristais de urato que se depositam nas articulações, mais frequentemente na base do dedo grande do pé. O primeiro ataque de gota é tipicamente súbito e muito doloroso — a articulação fica vermelha, quente e inchada, muitas vezes ao ponto de o simples peso do lençol ser insuportável durante a noite. Com o tempo, e sem tratamento adequado, os ataques podem tornar-se mais frequentes e afetar outras articulações, e podem formar-se tofos — depósitos visíveis de cristais de urato sob a pele.
Rins: cálculos e doença renal crónica
O ácido úrico em excesso também pode cristalizar-se nos rins, formando cálculos que provocam dor intensa e, nalguns casos, obstrução urinária. Além disso, existe uma relação bidirecional entre ácido úrico e função renal: a doença renal crónica reduz a excreção de ácido úrico, o que eleva os valores no sangue, e esse próprio aumento pode contribuir para acelerar a progressão da doença renal — um ciclo que reforça a importância de vigiar a função renal em pessoas com hiperuricemia persistente.
Risco cardiovascular: marcador ou causa?
A hiperuricemia está consistentemente associada a hipertensão arterial, síndrome metabólica e doença cardiovascular. No entanto, a evidência mais recente sugere que o ácido úrico funciona sobretudo como um marcador do risco metabólico global — um sinal de que outros fatores de risco, como a hipertensão, o excesso de triglicéridos ou a resistência à insulina, também podem estar presentes — mais do que uma causa independente e isolada de doença cardíaca. Por isso, o consenso europeu de 2025 recomenda que a decisão de tratar não se baseie apenas no valor de ácido úrico, mas no risco cardiovascular e renal global da pessoa.
O que fazer: estilo de vida primeiro
- Reduzir o álcool, sobretudo a cerveja: uma das medidas com maior impacto direto nos valores de ácido úrico
- Reduzir bebidas açucaradas e frutose: refrigerantes e sumos concentrados têm um efeito direto e mensurável
- Moderar o consumo de vísceras, marisco e carne vermelha — sem necessidade de os eliminar por completo na maioria dos casos
- Manter-se hidratado: a ingestão adequada de água favorece a excreção renal de ácido úrico e reduz o risco de formação de cálculos
- Perder peso, se houver excesso: a perda de peso gradual reduz os valores de ácido úrico, mas deve ser feita de forma sustentada — perdas de peso muito rápidas podem, paradoxalmente, elevar os valores a curto prazo
Quando entra a medicação
A medicação para baixar o ácido úrico (como o alopurinol) é claramente indicada em pessoas com gota recorrente, tofos, cálculos renais de ácido úrico, ou doença renal crónica associada. Em pessoas com hiperuricemia assintomática — sem gota nem sintomas — a decisão é mais individualizada, e o consenso de 2025 não recomenda tratamento farmacológico de rotina apenas com base no valor da análise, dado que os ensaios clínicos não mostraram benefício cardiovascular ou renal consistente nesse cenário.
Perspetiva clínica: o que perguntar ao seu médico
- “O meu ácido úrico está alto — já tive sintomas de gota ou cálculos renais que justifiquem tratar já?”
- “Vale a pena avaliar a função renal e outros fatores de risco cardiovascular associados?”
- “Algum dos meus medicamentos atuais pode estar a contribuir para este valor?”
Conclusão: um valor que pede contexto, não pânico
O ácido úrico alto nem sempre significa gota, e a gota nem sempre exige medicação imediata. O que a evidência mais recente deixa claro é que este valor deve ser lido em conjunto com o quadro clínico completo — sintomas, função renal e risco cardiovascular global — e não isoladamente. Reduzir o álcool e o açúcar, manter-se hidratado e gerir o peso continuam a ser as medidas com maior impacto, independentemente de haver ou não indicação para medicação.
Perguntas Frequentes Sobre Ácido Úrico
Qual é o valor normal de ácido úrico numa análise de sangue?
Considera-se hiperuricemia um valor acima de 7,0 mg/dL nos homens e acima de 6,0 mg/dL nas mulheres. Um valor elevado não significa automaticamente gota — muitas pessoas nunca desenvolvem sintomas, e o limiar de tratamento depende do risco cardiovascular e renal global.
Ácido úrico alto sem sintomas de gota precisa de tratamento?
Nem sempre. Um consenso europeu de 2025 esclareceu que não há benefício cardiovascular ou renal claro em tratar farmacologicamente hiperuricemia assintomática de forma rotineira. A abordagem deve ser individualizada, com mudanças de estilo de vida recomendadas em todos os casos.
Que alimentos aumentam o ácido úrico?
Vísceras, marisco, carnes vermelhas em excesso e álcool, sobretudo cerveja, são os fatores alimentares com maior impacto. Bebidas açucaradas e alimentos ricos em frutose também elevam os valores, porque o seu metabolismo produz ácido úrico diretamente.
Ácido úrico alto pode causar problemas nos rins?
Sim. Pode formar cálculos renais de ácido úrico, e existe uma relação bidirecional com a doença renal crónica: os rins doentes eliminam menos ácido úrico, o que agrava a hiperuricemia e pode acelerar a progressão da doença renal.
Qual a relação entre ácido úrico e risco cardiovascular?
A hiperuricemia está associada a hipertensão e síndrome metabólica, mas a evidência recente sugere que funciona sobretudo como marcador do risco metabólico global, mais do que causa isolada de doença cardíaca. O tratamento deve focar-se no conjunto de fatores de risco.
Guia completo: este artigo faz parte do guia Saúde Cardiovascular após os 40: Guia Completo de Prevenção.
Fontes
- European Journal of Internal Medicine — Expert consensus for the diagnosis and treatment of patients with hyperuricemia and high cardiovascular risk: 2025 update
- American College of Rheumatology / EULAR — Guideline for the Management of Gout
- PMC/NIH — estudos sobre hiperuricemia, síndrome metabólica e função renal
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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