Durante anos, a perda auditiva foi tratada como um incómodo do envelhecimento. Hoje sabe-se que pode ter consequências para a memória e o pensamento. A Comissão Lancet sobre demência, na atualização de 2024, incluiu-a entre os fatores modificáveis de risco, e o artigo Declínio Cognitivo e Demência: os 14 Fatores de Risco Modificáveis explica o quadro geral.
A pergunta que mais importa a quem tem uma queixa de audição é outra: se um aparelho auditivo reduz esse risco. Em maio de 2026, um estudo com mais de 60 mil adultos respondeu em parte a essa pergunta, e a resposta tem uma nuance que vale a pena perceber.
Porque é que a audição pode afetar a memória
Há duas explicações principais, e nenhuma está totalmente demonstrada. A primeira é a sobrecarga cognitiva: quem tem dificuldade em ouvir gasta mais energia mental a reconstituir as palavras, e sobra menos capacidade para memorizar e raciocinar. A segunda é o isolamento: quem deixa de perceber as conversas tende a participar menos em atividades sociais, e o isolamento social está associado a pior saúde cognitiva em vários estudos.
Existe ainda uma hipótese de privação sensorial, segundo a qual a estimulação auditiva reduzida altera, com o tempo, as redes cerebrais ligadas à linguagem e à memória. É uma hipótese plausível, sem prova definitiva em humanos.
Dois tipos de perda auditiva, dois problemas diferentes
A perda sensorioneural resulta de lesões na cóclea ou no nervo auditivo, muitas vezes ligadas à idade ou à exposição prolongada a ruído. É a forma mais comum na população adulta e é a que se associa mais diretamente às explicações anteriores.
A perda condutiva resulta de problemas no ouvido externo ou médio: cera acumulada, otite crónica, perfuração do tímpano, alterações da cadeia de ossículos. Não passa pelo nervo auditivo, e por isso é uma boa forma de testar se a associação com a demência é mais do que uma explicação pelo caminho nervoso.
Um estudo publicado em 2026 na revista The Laryngoscope analisou dados do programa americano All of Us, com 338.048 adultos. Entre eles, 393 tinham perda condutiva e 6.597 tinham demência. Depois de ajustar para outros fatores, a probabilidade de demência foi cerca de 2 vezes maior nas pessoas com perda condutiva. Os autores verificaram ainda que o tratamento, cirúrgico ou não cirúrgico, reduziu essa probabilidade apenas de forma pequena.
Este é um estudo transversal, que mede a situação num só momento. Não diz qual veio primeiro, por isso não permite concluir que a perda condutiva cause demência.
O estudo de 33 países: o aparelho ajuda, mas só se resultar
O estudo mais relevante para quem usa aparelho foi publicado a 12 de maio de 2026 na revista Cell Reports Medicine. Reuniu dados de sete coortes de envelhecimento, com 61.089 adultos com perda auditiva e 55 ou mais anos, em 33 países, entre eles os Estados Unidos, o Reino Unido, a China, a Coreia do Sul, o México e a Irlanda. O objetivo era perceber se usar aparelho estava associado a menos demência provável.
O resultado depende de um detalhe. Quem usava o aparelho e avaliava a sua audição com o aparelho como excelente, muito boa ou boa teve um risco de demência provável 14% mais baixo (HR 0,86; IC 95% 0,80–0,93). Quem usava o aparelho mas avaliava a melhoria como fraca, ou má, não teve redução nenhuma (HR 0,98; IC 95% 0,90–1,07).
Em termos práticos, a diferença não está em ter o aparelho na orelha. Está em ouvir melhor no dia a dia, em conversas, reuniões ou ao telefone. Por isso, a adaptação feita por um profissional, o acompanhamento e a reavaliação contam tanto como a compra do dispositivo.
O que o estudo não consegue provar
Os próprios autores são claros em três limitações. A primeira é o desenho: é observacional, e não pode provar que o aparelho reduz o risco. A segunda é que a audição e a eficácia do aparelho foram autorrelatadas, o que pode introduzir viés. A terceira é a representação geográfica: a amostra não inclui países de baixo rendimento nem algumas regiões do mundo.
Há ainda um efeito de seleção. Quem consegue manter um aparelho, ir às consultas de ajuste e reconhecer uma melhoria pode ser, à partida, uma população mais informada e com mais recursos, e isso poderia exagerar o benefício. Os autores admitem esta possibilidade, sobretudo nos países de rendimento médio.
Quando fazer uma audiometria
Há sinais que justificam uma avaliação, mesmo que a pessoa não sinta que tem um problema grave. Pedir para repetir frases com frequência, aumentar o volume da televisão além do habitual, ter dificuldade em perceber a fala em restaurantes ou em locais barulhentos, ouvir zumbidos e sentir que as pessoas parecem murmurar são sinais comuns. Também pesa a história familiar de perda auditiva e a exposição prolongada a ruído, no trabalho ou em concertos.
O primeiro passo é falar com o médico de família, que pode orientar para uma avaliação audiológica ou otorrinolaringológica. Antes disso, convém perguntar se há cera acumulada ou infeção, porque a perda condutiva pode melhorar com tratamento simples. Não se deve tentar remover cera com objetos como cotonetes, que podem empurrá-la mais para dentro ou lesionar o canal.
A audiometria tonal é um exame indolor. A pessoa ouve sons de diferentes frequências, em cada ouvido, e assinala quando os consegue perceber. O resultado mostra a perda por frequência e permite distinguir a perda sensorioneural da condutiva, comparando a audição pelo ar com a audição por condução óssea. Muitos serviços completam o exame com um teste de compreensão da fala, que avalia não só se ouve os sons, mas se percebe as palavras, o que é a queixa mais frequente de quem tem perda auditiva.
Se já usa aparelho: o que confirmar
Três coisas ajudam a perceber se o aparelho está a fazer o seu trabalho. A primeira é o ajuste: o aparelho deve ser programado para a sua perda auditiva específica, e essa programação deve ser revista ao longo do tempo. A segunda é o uso diário, sobretudo em situações de conversa. A terceira é a sensação concreta de melhoria: se continua a não perceber as conversas com o aparelho, vale a pena voltar ao profissional e não desistir do dispositivo.
Proteger a audição desde já
Ouvir música com auscultadores é um hábito que pesa mais do que parece. A Organização Mundial de Saúde recomenda limitar o volume a cerca de 60% do máximo e fazer pausas regulares, para reduzir o risco de lesão ao longo dos anos. Em ambientes de trabalho ruidosos, a proteção auditiva e as avaliações periódicas são igualmente importantes.
Para perceber o quadro completo dos fatores que se podem modificar, ver o guia Longevidade Saudável: O Guia Baseado em Evidência. Se a perda de audição vier acompanhada de tensão arterial alta, vale também a leitura de Tensão Arterial Abaixo de 130/80 e Demência, porque a pressão arterial é outro dos fatores com peso no risco cognitivo.
Perguntas frequentes sobre perda auditiva e demência
A perda auditiva aumenta mesmo o risco de demência?
Há associação consistente em vários estudos, e a Comissão Lancet de 2024 inclui a perda auditiva entre os fatores modificáveis de risco de demência. Mas uma associação observacional não prova que a perda de audição cause a demência: parte da relação pode ser o caminho inverso, ou fatores comuns, como o envelhecimento vascular. O que se pode dizer com segurança é que tratar a perda auditiva é uma das poucas medidas desta lista que se pode aplicar de forma concreta.
Um aparelho auditivo reduz o risco de demência?
Num estudo grande de 2026, sim, mas apenas quando o aparelho melhorava de facto a audição, segundo a própria pessoa. Quem usava o aparelho sem sentir melhoria não teve redução do risco. Isto sugere que o benefício depende da reabilitação auditiva bem feita, e não apenas de ter o aparelho na orelha.
A perda auditiva causada por cera ou infeção do ouvido também conta?
Sim, e é uma diferença importante. A perda condutiva, que resulta de problemas no ouvido médio ou externo, como cera acumulada, otite crónica ou alterações do tímpano, é em geral mais tratável. Um estudo americano de 2026 encontrou mais probabilidade de demência nestas pessoas, e o tratamento, cirúrgico ou não cirúrgico, reduziu esse risco apenas de forma pequena. Por isso, uma queixa auditiva deve ser avaliada antes de se assumir que é irreversível.
Devo fazer uma audiometria mesmo sem sentir problemas?
Se houver sinais como pedir repetições em conversas, aumentar o volume da televisão além do habitual ou ter dificuldade em perceber a fala em ambientes com ruído, vale a pena falar com o médico de família e pedir uma avaliação. Muitas perdas auditivas instalam-se devagar, e a própria pessoa tende a notá-las mais tarde do que os familiares.
Fontes: Hearing aid effectiveness and probable dementia risk across 33 countries: a pooled analysis of seven cohorts, Cell Reports Medicine, 12 de maio de 2026 (CHARLS, KLOSA, SHARE, ELSA, TILDA, HRS, MHAS; N = 61.089); Conductive Hearing Loss is Associated With Dementia in the All of Us Research Program, The Laryngoscope, 2026 (estudo transversal, N = 338.048); Comissão Lancet sobre demência, atualização de 2024; Organização Mundial de Saúde, Make Listening Safe (2019).
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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