Um ensaio clínico piloto publicado em 2026 na revista Frontiers in Aging encontrou reduções superiores a 50% em afrontamentos, inchaço e má qualidade do sono, em mulheres com sintomas de transição da menopausa, depois de sete dias a tomar um suplemento de nicotinamida ribosídeo e pterostilbeno. Os números, à primeira vista, impressionam. Mas este é exatamente o tipo de estudo que pede leitura cuidadosa antes de qualquer conclusão — e é isso que este artigo tenta fazer.
Este artigo complementa o NAD+ e Senolíticos: os Novos Suplementos de Longevidade Têm Evidência em Humanos?, que já tinha concluído que nenhum ensaio até agora demonstrou extensão de vida em humanos com precursores de NAD+, e liga-se a Menopausa: O que Mudou na Ciência em 20 Anos e a Menopausa Precoce.
O que o estudo testou
A equipa recrutou 40 mulheres saudáveis com mais de 35 anos: 32 relataram sintomas associados à transição da menopausa (idade média 48,3 anos) e 8 não tinham sintomas relevantes (idade média 57,5 anos, servindo como grupo de comparação). Todas tomaram a dose recomendada do suplemento comercial Basis — 250 mg de nicotinamida ribosídeo e 50 mg de pterostilbeno por dia — durante sete dias, com avaliações no início e no sétimo dia.
A lógica biológica por trás do ensaio: o NAD+ é necessário para a produção de várias hormonas, incluindo o estradiol, e tanto o NAD+ como o estradiol diminuem com a idade. A hipótese dos autores era que repor o NAD+ pudesse, indiretamente, aliviar sintomas ligados à queda de estradiol.
Este ensaio surge num contexto de forte crescimento comercial dos suplementos de longevidade baseados em precursores de NAD+ — nicotinamida ribosídeo (NR) e mononucleótido de nicotinamida (NMN) são os mais vendidos, promovidos com promessas que vão da energia celular à extensão da vida. É um mercado onde a procura tem crescido mais depressa do que a evidência científica que a sustenta, como já foi discutido em NAD+ e Senolíticos. Este ensaio piloto é o primeiro a testar especificamente sintomas da menopausa, uma população e um objetivo diferentes dos estudos gerais de longevidade — mas com o mesmo padrão de evidência preliminar a preceder qualquer prova sólida.
O que encontrou
Os sintomas foram avaliados em escalas de 0 a 9, tanto para frequência como para intensidade:
- Afrontamentos: 75% das participantes relataram melhoria na frequência e 84% na intensidade (p<0,0001).
- Sono fraco: 84% relataram melhoria na frequência e 91% na intensidade (p<0,0001) — a melhoria mais consistente de todo o estudo.
- Inchaço: 78% das participantes relataram melhoria (redução estatisticamente significativa na frequência).
- Rácio estradiol/estrona: aumentou de forma estatisticamente significativa no grupo com sintomas (p<0,01), o resultado bioquímico que sustenta a hipótese dos autores.
O grupo sem sintomas de menopausa, usado como comparação, não mostrou melhorias significativas em nenhum destes parâmetros — um detalhe que os autores apontam como reforço de que o efeito, a existir, é específico de quem já tem sintomas ativos, não um efeito genérico do suplemento.
As cinco razões para ler isto com cautela
Nenhuma destas razões, isoladamente, invalidaria um estudo. Juntas, pedem prudência séria antes de tirar qualquer conclusão:
- 1. Sem grupo placebo. É um ensaio “open-label” — todas as participantes sabiam que estavam a tomar o suplemento ativo. Não há forma de distinguir o efeito real do suplemento do efeito placebo, que costuma ser particularmente forte em sintomas subjetivos como afrontamentos, inchaço e perceção de qualidade do sono.
- 2. Sete dias. É tempo suficiente para um efeito placebo se instalar, mas insuficiente para perceber se um efeito real se mantém, se dilui ou desaparece.
- 3. Financiado por quem vende o produto. O estudo foi financiado pela Elysium Health, a empresa que comercializa este suplemento como “Basis”. Três dos autores são funcionários da empresa, com interesse financeiro direto num resultado positivo.
- 4. Sintomas incompletos. O ensaio não avaliou sintomas cognitivos (“nevoeiro mental”), fadiga nem alterações de humor — todos frequentemente associados à transição da menopausa e relevantes para quem procura alívio.
- 5. Confundição por outros suplementos. Os próprios autores admitem que o uso de vitaminas pelas participantes não foi suficientemente detalhado nem controlado, o que pode ter influenciado os resultados de formas que o estudo não consegue isolar.
A avaliação GRADE não foi aplicada formalmente neste ensaio piloto — mas, pelo desenho (sem placebo, sem ocultação, amostra pequena, financiamento com conflito de interesse direto), a certeza da evidência seria classificada como muito baixa em qualquer sistema padrão de avaliação. É o mesmo grau de cautela já aplicado a outros suplementos de longevidade no artigo NAD+ e Senolíticos: o maior ensaio publicado até agora sobre precursores de NAD+ em humanos tem apenas 12 semanas, e nenhum demonstrou extensão de vida.
O que a ciência estabelecida diz sobre estes sintomas
Para afrontamentos, insónia e outros sintomas vasomotores da menopausa, a opção com décadas de ensaios aleatorizados e controlados por placebo continua a ser a terapêutica hormonal de substituição (TRH), cujos benefícios e riscos atualizados estão detalhados em Menopausa: O que Mudou na Ciência em 20 Anos — incluindo a revisão de 2025 que não encontrou associação entre a TRH e risco de demência, ao contrário do que se receava há duas décadas. Para quem tem menopausa precoce, o artigo Menopausa Precoce descreve as opções específicas dessa situação.
Isto não significa que a TRH seja adequada para todas as mulheres — tem contraindicações e a decisão deve ser individualizada com o médico —, mas significa que existe uma alternativa com uma base de evidência muito mais sólida do que um ensaio piloto de sete dias sem placebo.
O que pode fazer com esta informação
1. Trate isto como um sinal preliminar, não uma recomendação. Um ensaio piloto sem placebo, financiado pelo fabricante, serve para gerar hipóteses a testar em estudos maiores — não para basear uma decisão de compra ou de tratamento.
2. Fale com o seu médico sobre as opções com evidência estabelecida. Se os sintomas da menopausa estão a afetar a sua qualidade de vida, a TRH e outras opções não hormonais com ensaios controlados por placebo são o ponto de partida mais sólido.
3. Se decidir experimentar o suplemento, saiba o que está a comprar. Não é um medicamento aprovado para sintomas de menopausa por nenhuma agência reguladora, é um suplemento alimentar — o que significa menos exigências de prova de eficácia do que um fármaco.
4. Procure ensaios maiores e independentes antes de confiar nos resultados. Um estudo financiado pelo fabricante, com resultados positivos, é exatamente o tipo de resultado que precisa de replicação por equipas sem conflito de interesse antes de se tornar uma recomendação de saúde pública.
Perguntas frequentes sobre NAD+ e sintomas da menopausa
O que é a nicotinamida ribosídeo e porque se liga à menopausa?
É um precursor do NAD+ (dinucleótido de adenina e nicotinamida), uma molécula essencial para a produção de energia nas células e, entre outras funções, para a síntese de hormonas como o estradiol. Os níveis de NAD+ e de estradiol descem ambos com a idade, o que levou os autores do ensaio a testar se repor o NAD+ poderia aliviar sintomas associados à queda de estradiol na transição da menopausa.
O ensaio teve grupo de controlo com placebo?
Não. Foi um ensaio aberto (“open-label”), sem placebo e sem ocultação — todas as participantes sabiam que estavam a tomar o suplemento ativo. Este é o desenho mais fraco entre os ensaios clínicos, particularmente vulnerável ao efeito placebo em sintomas subjetivos como afrontamentos e qualidade do sono, que são precisamente os que o estudo mediu.
Quem financiou o estudo?
A Elysium Health, a empresa que comercializa o suplemento testado sob a marca Basis. Três dos autores do artigo são funcionários da Elysium Health, com interesse financeiro direto num resultado positivo. Isto não invalida automaticamente os resultados, mas é um conflito de interesses relevante que qualquer leitor deve conhecer antes de interpretar os números.
Sete dias chegam para saber se um suplemento funciona na menopausa?
Não, e os próprios autores reconhecem isto como uma limitação central. Sete dias é tempo suficiente para captar um efeito placebo forte em sintomas que a própria pessoa relata (afrontamentos, sono, inchaço), mas não permite perceber se o efeito se mantém, desaparece ou até se inverte a médio prazo. Ensaios de suplementos de menopausa que pareceram promissores em estudos curtos frequentemente não se confirmam em ensaios maiores e mais longos com placebo.
Isto substitui a terapêutica hormonal para a menopausa?
Não há nenhuma base para essa comparação neste estudo. A terapêutica hormonal de substituição (TRH) tem décadas de ensaios aleatorizados e controlados por placebo a avaliar a sua eficácia e segurança, resumidos no artigo Menopausa: O que Mudou na Ciência em 20 Anos. Este suplemento tem um único ensaio piloto de 7 dias, sem placebo, financiado pela própria empresa que o vende. Fale com o seu médico sobre as opções com evidência estabelecida antes de considerar suplementos não regulados.
Fontes: ensaio piloto sobre nicotinamida ribosídeo e pterostilbeno em sintomas da transição da menopausa, Frontiers in Aging (2026); Melville M, He L, Desai R, et al., Menopause hormone therapy and risk of mild cognitive impairment or dementia: a systematic review and meta-analysis, Lancet Healthy Longevity (dezembro de 2025).
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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