Durante muito tempo, a saúde da boca e a saúde do coração foram tratadas como assuntos separados. Em fevereiro de 2026, a American Heart Association (AHA) publicou uma declaração científica a dizer que essa separação já não se justifica. A doença periodontal, que é a forma avançada da doença das gengivas, está associada de forma independente à doença aterosclerótica cardiovascular, segundo a análise de estudos que a AHA reuniu.
A frase que importa reter é que a associação existe, mas a relação de causa e efeito ainda não está provada. Este artigo explica o que a declaração diz, o que não diz, e o que uma pessoa com mais de 40 anos pode fazer já. Para o quadro geral dos fatores de risco, ver o guia Saúde Cardiovascular após os 40.
O que é a doença periodontal
A doença periodontal começa como gengivite, uma inflamação das gengivas causada pela placa bacteriana. Se não for tratada, pode evoluir para periodontite: a inflamação destrói o osso e os tecidos que seguram os dentes. A progressão é muitas vezes silenciosa, e a pessoa só percebe quando os dentes começam a mexer ou quando as gengivas recuam.
A prevalência aumenta com a idade, e é um problema comum na população adulta. Por isso, a doença das gengivas é muito mais do que um incómodo estético: é uma inflamação crónica de baixo grau, localizada na boca, mas que pode ter repercussões no resto do organismo.
O que a AHA diz em 2026
A declaração científica, publicada na revista Circulation a 10 de fevereiro de 2026, faz uma síntese da evidência mais recente sobre a relação entre doença periodontal e doença cardiovascular aterosclerótica. Três pontos merecem atenção.
O primeiro é a associação independente: depois de ajustar para os fatores de risco clássicos, como a idade, a tensão arterial, o colesterol, a diabetes e o tabaco, a doença periodontal continua associada a mais doença cardiovascular.
O segundo são os mecanismos propostos. Há mecanismos diretos, como a passagem de bactérias da boca para a circulação e a infeção de tecidos vasculares. E há mecanismos indiretos, como a inflamação crónica sistémica, a disfunção endotelial, fatores trombóticos e alterações do microbioma oral. Nenhum destes mecanismos está demonstrado como a causa principal.
O terceiro são os estudos de genética. Estudos de randomização mendeliana sugerem que existem genes em comum entre a suscetibilidade à doença periodontal e à doença aterosclerótica. Esta abordagem ajuda a testar causalidade, mas não a resolve por completo.
O que a declaração não consegue provar
A própria AHA é clara num ponto: não há evidência direta de que o tratamento da doença periodontal previna doença cardiovascular. A maioria dos estudos são observacionais, e comparam pessoas com e sem doença das gengivas, o que deixa espaço para fatores de confusão. Quem tem gengivas doentes tende também a fumar mais, a ter pior controlo da diabetes ou a ter menos acesso a cuidados de saúde.
Faltam ensaios clínicos de longo prazo que tratem a doença periodontal e acompanhem os eventos cardiovasculares. Sem eles, não se pode dizer que tratar as gengivas reduz enfartes ou AVC. A própria AHA pede mais investigação, incluindo ensaios aleatorizados, antes de mudar as recomendações de prevenção cardiovascular.
Isto não significa que a associação seja irrelevante. Significa que é um sinal que merece atenção, e que não deve ser transformado em promessa de proteção.
O que a AHA recomenda na prática
Segundo a síntese da declaração, a recomendação prática é a avaliação dentária regular, e o encaminhamento para um periodontologista em pessoas com risco cardiovascular elevado. A lógica é simples: se há uma inflamação ativa na boca, vale a pena tratá-la, tanto pelos dentes como pelo que pode representar para o resto do corpo.
Esta recomendação encaixa com o que já se faz noutras áreas da prevenção. Quem tem risco cardiovascular elevado deve ter o colesterol e a tensão arterial controlados, e agora também deve ter a boca avaliada. O artigo Novas Metas de Colesterol LDL mostra como o risco cardiovascular é calculado de forma cada vez mais individual.
Como se avalia a doença das gengivas
A avaliação periodontal é feita pelo dentista ou pelo periodontologista, e combina várias medições. A principal é a sondagem: o profissional mede, com uma sonda fina, a profundidade do sulco entre o dente e a gengiva em vários pontos da boca. Sulcos mais profundos do que o normal indicam perda de inserção e inflamação. Acrescentam-se a avaliação do sangramento à sondagem e a medição da placa bacteriana, que dão uma ideia da atividade da doença naquele momento.
Em muitos casos é também pedida uma radiografia, que mostra a perda de osso de suporte à volta dos dentes. Como a doença progride sem dor na maioria das pessoas, estas medições são a forma mais fiável de perceber se há problema, muito antes de a pessoa notar algo. Por isso, uma consulta de higiene oral com registo destes parâmetros é mais útil do que apenas uma limpeza de rotina.
Para quem tem mais de 40 anos, a idade e o historial de tabagismo ou de diabetes ajudam a decidir com que frequência fazer esta avaliação. O dentista de família pode indicar o intervalo adequado a cada caso, e o registo dos resultados ao longo do tempo mostra se a doença está estável ou a progredir.
O que pode fazer já
1. Escove os dentes e use fio ou escova interdental. A placa bacteriana entre os dentes é uma das causas principais da gengivite. Uma escovagem diária e a limpeza entre os dentes são medidas simples e de baixo custo.
2. Preste atenção aos sinais de alerta. Sangramento frequente, gengivas inchadas, mau hálito persistente e dentes que começam a mexer não são normais e justificam uma consulta.
3. Deixe de fumar. O tabaco é dos fatores que mais pesam tanto na doença periodontal como na doença cardiovascular. Parar de fumar é, por isso, uma das medidas com mais impacto nos dois sistemas.
4. Controle a diabetes e a tensão arterial. A diabetes mal controlada piora a inflamação das gengivas, e a doença periodontal pode dificultar o controlo da glicemia. Os dois problemas devem ser vistos em conjunto.
5. Fale com o médico de família e com o dentista. Se tem risco cardiovascular elevado, vale a pena mencionar a saúde oral na consulta, e pedir uma avaliação periodontal se houver sinais de doença das gengivas.
Como encaixa na prevenção global
A boca não é um assunto à parte da prevenção. A inflamação crónica é um denominador comum de várias doenças que aparecem com a idade, e a doença periodontal é uma das suas fontes possíveis. Por isso, faz sentido tratá-la como parte da avaliação de risco, e não como um tema isolado. Os dados ainda são observacionais, e as próximas diretrizes deverão dizer com mais precisão quem deve ser rastreado e com que frequência. Até lá, a melhor atitude é a mesma que a boa prevenção pede em geral: não ignorar sinais, não esperar por certezas que a ciência ainda não tem, e acompanhar o risco com o médico.
Para perceber quais são os outros fatores que pesam mais no risco cardiovascular e como medi-los, ver Pontuação de Cálcio Coronário, que explica um dos exames que ajudam a estimar esse risco de forma mais precisa.
Perguntas frequentes sobre doença das gengivas e coração
A doença das gengivas pode causar um enfarte ou um AVC?
A declaração da AHA de 2026 diz que existe uma associação independente entre doença periodontal e doença aterosclerótica cardiovascular, mas não prova que uma cause a outra. Há mecanismos plausíveis, como a inflamação crónica e a entrada de bactérias na circulação, mas a relação de causa e efeito ainda não está demonstrada. Não se deve assumir que uma gengivite provoca um enfarte, nem que uma boa higiene oral evita um.
Ir regularmente ao dentista reduz o risco cardiovascular?
Não há, até hoje, prova direta de que o tratamento da doença periodontal reduza eventos cardiovasculares. A AHA recomenda a avaliação dentária regular, sobretudo em pessoas com risco cardiovascular elevado, porque tratar a doença das gengivas tem vantagens próprias: evita a perda de dentes e melhora a inflamação local. O benefício cardiovascular ainda precisa de ensaios clínicos que o confirmem.
Quais são os sinais de que as gengivas precisam de avaliação?
Sangramento ao escovar ou ao usar fio dentário, gengivas vermelhas, inchadas ou sensíveis, mau hálito que persiste apesar da higiene, retração das gengivas que deixa os dentes mais longos, dentes que começam a mexer e espaços novos entre os dentes. Se houver mais do que um destes sinais, vale a pena uma consulta de avaliação periodontal.
O tabaco e a diabetes afetam as gengivas e o coração da mesma forma?
Sim, em parte. O tabaco é um dos maiores fatores de risco de doença periodontal e de doença cardiovascular, e pode tornar o tratamento das gengivas menos eficaz. A diabetes mal controlada também piora a inflamação das gengivas, e a doença periodontal pode, por sua vez, dificultar o controlo da glicemia. Por isso, estes fatores devem ser vistos em conjunto.
Fontes: American Heart Association, Periodontal Disease and Atherosclerotic Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association, Circulation 2026;153:e73–e88, DOI 10.1161/CIR.0000000000001390 (publicada a 10 de fevereiro de 2026); resumo oficial da AHA para profissionais de saúde sobre a declaração.
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
Este artigo foi útil?
O HealthPrev é gratuito e independente. Um donativo — mesmo pequeno — ajuda a publicar mais artigos como este.
2€ · 5€ · 10€ — ou o montante que preferir · via PayPal