Em maio de 2026, a American Cancer Society (ACS) atualizou a sua diretriz de rastreio do cancro colorretal — a atualização mais relevante nesta área desde que a idade de início baixou para os 45 anos, em 2018. A mudança central não foi a idade, mas as opções: pela primeira vez, a diretriz passa a incluir formalmente um teste de sangue e dois testes de fezes de nova geração, ao lado da colonoscopia e do teste de sangue oculto nas fezes já conhecidos.
Este artigo explica o que mudou, como os novos testes se comparam entre si e com as opções já existentes, e porque é que, apesar da novidade, a colonoscopia e os testes de fezes continuam a ser a recomendação preferida — incluindo o motivo pelo qual nenhum destes testes novos está, por agora, disponível em Portugal.
O que a diretriz manteve: idade e estrutura de risco
A estrutura de base do rastreio não mudou. A diretriz reafirma que adultos com risco médio devem começar o rastreio do cancro colorretal aos 45 anos, continuando até aos 75 anos em quem tem uma esperança de vida superior a 10 anos. Esta é a mesma idade de início já estabelecida em 2018, quando a ACS a baixou dos 50 para os 45 anos, em resposta ao aumento de casos em adultos mais jovens.
O que mudou foi o leque de ferramentas disponíveis para fazer esse rastreio — e a forma como a diretriz classifica cada uma, segundo o seu desempenho.
Os dois testes de fezes novos ou atualizados
A colonoscopia a cada 10 anos continua a ser o exame com maior sensibilidade — superior a 95% —, com a vantagem única de permitir remover pólipos pré-cancerosos durante o mesmo procedimento, transformando o rastreio numa intervenção preventiva direta. Ao lado da colonoscopia, a diretriz passa a recomendar dois testes de fezes a repetir a cada 3 anos:
Cologuard Plus (teste de ADN fecal, uma versão atualizada do já conhecido Cologuard): segundo os dados citados pela ACS, deteta corretamente cerca de 95% dos cancros colorretais (sensibilidade) e identifica corretamente cerca de 94% das pessoas sem pólipos pré-cancerosos ou cancro (especificidade).
ColoSense (teste de ARN fecal, uma tecnologia nova nesta diretriz): mostrou 94,4% de sensibilidade para cancro colorretal e 45,9% de sensibilidade para adenoma avançado — pólipos que ainda não são cancro, mas que têm potencial para se tornar.
Ambos se juntam ao já estabelecido teste de sangue oculto nas fezes imunoquímico (FIT), que continua recomendado anualmente como uma das opções preferidas, pela sua simplicidade, baixo custo e evidência acumulada ao longo de décadas.
O teste de sangue: uma opção com limites claros
A novidade com mais destaque mediático foi a inclusão de um teste de sangue — comercializado como Shield — feito numa colheita de sangue de rotina em consultório, sem necessidade de preparação intestinal nem de manusear amostras de fezes em casa. A promessa de conveniência é real, mas a diretriz é explícita sobre as suas limitações.
O Shield detetou cerca de 83-84% dos cancros colorretais nos estudos citados — um valor mais baixo do que os testes de fezes — e mostrou um desempenho claramente mais fraco na deteção de cancros em estádio I (os mais precoces e com melhor prognóstico) e de lesões pré-cancerosas avançadas, precisamente as lesões que um bom rastreio deveria apanhar antes de se tornarem cancro. Por isso, a ACS recomenda o teste de sangue apenas para pessoas que recusam ou não conseguem completar as opções preferidas — colonoscopia ou testes de fezes —, não como primeira escolha.
Esta hierarquia é importante porque contraria a intuição de que um teste de sangue, por ser menos incómodo, seria necessariamente a melhor opção. Neste caso, a conveniência tem um custo real em sensibilidade, sobretudo para os casos mais precoces — que são também os que mais beneficiam de deteção atempada.
Qualquer resultado positivo exige colonoscopia de seguimento
Um ponto que a diretriz reforça, e que vale a pena destacar, é que nenhum destes testes não invasivos substitui a colonoscopia quando o resultado é positivo. Um resultado positivo em qualquer um deles — FIT, ColoSense, Cologuard Plus ou Shield — exige sempre uma colonoscopia de seguimento para confirmar ou excluir a presença de cancro ou de pólipos, idealmente dentro de 6 meses. Sem este seguimento, o rastreio perde o seu valor prático: identificar um risco sem o confirmar e tratar não protege ninguém.
Porque nenhum destes testes está, por agora, disponível em Portugal
É importante situar esta diretriz no seu contexto geográfico. O Shield, o ColoSense e o Cologuard Plus foram aprovados pela agência reguladora de medicamentos e dispositivos dos Estados Unidos, e a diretriz da American Cancer Society aplica-se ao sistema de saúde americano. Nenhum destes três testes faz parte do Programa Nacional de Rastreio do Cancro Colorretal em Portugal.
Como já descrito no artigo-guia sobre rastreios oncológicos, o rastreio disponível em Portugal, coordenado pela Direção-Geral da Saúde, continua a ser a pesquisa de sangue oculto nas fezes imunoquímica (FIT), dos 50 aos 74 anos, a cada 2 anos, com colonoscopia diagnóstica sempre que o resultado é positivo. Esta estratégia tem décadas de evidência a comprová-la — reduz a mortalidade por cancro colorretal entre 15% e 33% — e não deixa de ser válida só porque os Estados Unidos acrescentaram novas opções ao seu próprio leque.
O valor prático desta diretriz para o leitor português é, sobretudo, de contexto: mostra para onde a tecnologia de rastreio está a evoluir, e reforça — pela forma como a própria ACS hierarquiza as opções — que mais tecnologia não significa automaticamente melhor desempenho. A colonoscopia e os testes de fezes continuam no topo porque, até agora, continuam a detetar mais casos e mais casos precoces do que as alternativas mais recentes.
Uma atualização distinta dos testes multicancro
Esta diretriz não deve ser confundida com os testes de deteção precoce de múltiplos cancros (MCED, na sigla inglesa), já abordados no artigo sobre deteção precoce de múltiplos cancros. Os testes MCED procuram sinais de vários tipos de cancro em simultâneo, numa única amostra de sangue, e nenhum tem, até à data, aprovação regulatória nem recomendação formal de uso. O Shield, pelo contrário, é especificamente dirigido ao cancro colorretal, já tem aprovação regulatória nos Estados Unidos e passou a constar de uma diretriz formal — um estádio de validação bastante mais avançado, ainda que limitado a este cancro em particular.
O que fica para quem lê isto em Portugal
A mensagem prática mais importante desta atualização não é sobre qual teste escolher — porque, para a generalidade dos leitores portugueses, essa escolha ainda não existe. A mensagem é que a ciência do rastreio do cancro colorretal continua a avançar, que a colonoscopia e os testes de fezes simples continuam a ser, mesmo nos sistemas de saúde com mais opções tecnológicas, a recomendação de primeira linha, e que a decisão mais importante continua a ser a mais básica: fazer o rastreio, na idade certa, com o teste que estiver disponível e acessível, e não adiar por não ter acesso ao teste “mais recente”.
Para quem tem fatores de risco acima da média — história familiar de cancro colorretal, doença inflamatória intestinal, síndromes genéticos conhecidos —, a conversa com o médico de família sobre quando começar e com que frequência repetir o rastreio continua a ser mais relevante do que qualquer novidade tecnológica isolada.
Perguntas frequentes sobre a atualização do rastreio do cancro colorretal
Estes novos testes de rastreio do cancro colorretal já estão disponíveis em Portugal?
Não. O Shield (teste de sangue), o ColoSense (ARN fecal) e o Cologuard Plus (ADN fecal) foram aprovados pela agência reguladora dos Estados Unidos e passaram a constar da diretriz da American Cancer Society, mas não fazem parte do Programa Nacional de Rastreio do Cancro Colorretal em Portugal. O rastreio disponível através da Direção-Geral da Saúde continua a ser a pesquisa de sangue oculto nas fezes imunoquímica (FIT), dos 50 aos 74 anos, a cada 2 anos, com colonoscopia de seguimento se o resultado for positivo.
Qual destes testes é mais fiável?
Segundo os dados citados pela diretriz, a colonoscopia continua a ser o exame com maior sensibilidade global, superior a 95%, com a vantagem de permitir remover pólipos pré-cancerosos no mesmo procedimento. Entre os testes não invasivos, o Cologuard Plus (ADN fecal) e o ColoSense (ARN fecal) detetam cerca de 94-95% dos cancros colorretais, com boa deteção de lesões pré-cancerosas avançadas. O teste de sangue Shield detetou cerca de 83-84% dos cancros, mas com sensibilidade claramente mais baixa para cancros em estádio inicial e para lesões pré-cancerosas — por isso a diretriz recomenda-o apenas para quem recusa ou não consegue completar as opções preferidas.
Um teste de fezes ou de sangue com resultado positivo substitui a colonoscopia?
Não. Qualquer um destes testes não invasivos é um teste de rastreio, não de diagnóstico. Um resultado positivo em qualquer um deles — FIT, ColoSense, Cologuard Plus ou Shield — exige sempre uma colonoscopia de seguimento para confirmar ou excluir a presença de um cancro ou de pólipos, idealmente dentro de 6 meses. Sem esse seguimento, o teste de rastreio não tem utilidade.
A partir de que idade deve começar o rastreio do cancro colorretal?
A diretriz da American Cancer Society reafirma os 45 anos como idade de início para adultos com risco médio, prolongando-se até aos 75 anos em quem tem uma esperança de vida superior a 10 anos. Em Portugal, o Programa Nacional de Rastreio começa aos 50 anos. Quem tem história familiar de cancro colorretal ou outros fatores de risco deve discutir com o médico de família se há motivo para começar mais cedo, independentemente da idade-padrão de qualquer programa.
Guia completo: este artigo faz parte do guia Longevidade Saudável: O Guia Baseado em Evidência para Viver Mais e Melhor.
Fontes: American Cancer Society, “American Cancer Society Updates Colorectal Cancer Screening Guideline: Major Changes Emphasize Blood-Based and At-Home Stool Testing”, comunicado oficial, 27 de maio de 2026 (pressroom.cancer.org); dados de sensibilidade/especificidade do Cologuard Plus, ColoSense e Shield conforme citados na cobertura da diretriz por veículos especializados (Medical News Today, Healio, Managed Healthcare Executive, maio-junho de 2026).
Nota de saúde: Este artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui aconselhamento médico, diagnóstico nem prescrição. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de tomar decisões relacionadas com a sua saúde. Para saber como investigamos e escrevemos os nossos conteúdos, consulte a nossa Política Editorial.
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